Grandes Ideias
Jeff VanderMeer é um talentoso e hiperactivo escritor norte-americano, com uma obra ficcional que pode ser arrumada – embora este tipo catalogação seja sempre redutora – no género Fantástico. Aos 40 anos, tem já uma razoável bibliografia (quatro romances, oito volumes de contos e a assinatura em várias antologias), além de colaborações regulares na imprensa e vários poisos na blogosfera. A Portugal chegou apenas, por enquanto, a novela com que ganhou um World Fantasy Award em 2000 (A Transformação de Martin Lake, Livros de Areia, 2006).
No ano passado, Jeff decidiu concentrar-se no seu último romance (Finch, com edição prevista para Outubro, na Underland Press) e durante seis meses desligou-se praticamente do mundo, reduzindo ao mínimo o tempo passado na Internet. Quando acabou esta maratona literária, para descomprimir, decidiu oferecer-se «um pequeno desafio». Ou seja, outra maratona literária. Num e-mail enviado a Colin Brush, da Penguin Books, propôs: «Se me enviar os 60 volumes da vossa série Great Ideas, escreverei as respectivas recensões em 60 dias.» Leram bem: 60 textos sobre 60 livros, em 60 dias. Dito de outro modo: em dois meses, o trabalho que um crítico literário costuma fazer em dois anos.
Os amigos de VanderMeer oscilaram entre considerá-lo «louco» e «parvo», mas Colin Brush gostou da ideia e enviou-lhe pelo correio as ditas seis dezenas de livrinhos com obras maiores de grandes autores que «mudaram o mundo» – Platão, Cícero, Maquiavel, Rousseau, Darwin, Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Voltaire, Marco Polo, Sun-Tzu, O Manifesto Comunista de Marx e Engels, etc. – «resumidas» a 128 páginas e sem extratextos. Desde 15 de Dezembro, Jeff ainda não fraquejou: todas as noites lê um livro, por vezes razoavelmente denso, sobre o qual escreve na manhã seguinte, com uma pontualidade exemplar e imune a circunstâncias que costumam distrair os outros humanos, como os feriados do Natal e Ano Novo.
A estrutura dos posts não varia. Começa com uma citação memorável; a seguir vem a sinopse; logo depois meia dúzia de parágrafos em que VanderMeer discute os principais argumentos do livro, muitas vezes partindo da experiência concreta da leitura ou de pequenas histórias pessoais; por fim a conclusão telegráfica e uma pergunta provocadora, geralmente capaz de gerar debates profícuos na caixa de comentários. Exemplo de uma sinopse (Confissões, de Santo Agostinho): «Uma viagem do pecado à epifania e à redenção, no contexto de uma fé palpável na fisicalidade de Deus, mas também no mundo enquanto realidade abstracta». Sobre Séneca, Jeff conclui que o filósofo romano, se vivesse hoje, «não desperdiçaria tempo a procurar referências ao seu nome no Google». Já quanto a Montaigne, uma certeza: «nunca seria companheiro de copos de Dylan Thomas».
Embora recorra muitas vezes ao humor, VanderMeer aborda esta «constelação de livros», como lhe chamaria Gabriel Zaid, da forma mais séria possível. O resultado, quase sempre brilhante, pode ser lido no seu blogue – Ecstatic Days – até 19 de Fevereiro.
PS – Devido a compromissos profissionais, VanderMeer ainda não acabou a sua odisseia livresca. Mas, como ele próprio explica aqui, o projecto não foi abandonado, apenas suspenso.
[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]
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