Harold Pinter (1930-2008)

Na véspera de Natal, à noite, morreu Harold Pinter, um dos mais importantes dramaturgos ingleses do século XX e Prémio Nobel da Literatura em 2005. Eis o obituário do The Guardian. E eis um excerto da peça O Encarregado (The Caretaker, 1959), traduzido por Francisco Frazão:

Aston Você podia ser… o encarregado disto, se quisesse.
Davies O quê?
Aston Podia… tomar conta do sítio, se quisesse… sabe, as escadas e o patamar, os degraus da entrada, ficar de olho nisso. Arear as campainhas.
Davies Campainhas?
Aston Vou colocar algumas, lá em baixo, junto à porta da rua. Latão.
Davies Encarregado, hã?
Aston Sim.
Davies Bom, eu… eu nunca me encarreguei assim dum sítio, sabe… quero eu dizer… nunca… o que eu quero dizer é que… inda nunca fui encarregado.
Pausa.
Aston O que é que acha de ser, então?
Davies Bom, admito… Bem, ia ter de saber… sabe…
Aston Que tipo de…
Davies Pois, que tipo de… sabe…
Pausa.
Aston Bom, quer dizer…
Davies Quer dizer, ia ter de… ia ter de…
Aston Bom, eu podia dizer-lhe…
Davies É… é isso… percebe… tá-me a compreender?
Aston Quando chegar a altura…
Davies Quer dizer, é aí que eu quero chegar, percebe…
Aston Mais ou menos exactamente o que é que…
Davies Percebe, o que eu quero dizer… onde eu quero chegar é… quer dizer, que tipo de tarefas…
Pausa.
Aston Bom, há coisas como as escadas… e as… as campainhas…
Davies Mas ia ser coisa para… não ia… ia ser coisa para uma vassoura… não é?

Neste diálogo está, parece-me, a essência do que foi o teatro de Pinter. As famosas pausas. A conversa que se enrola sobre si mesma e não vai dar a lado nenhum. As frases interrompidas, partidas ao meio, atropeladas. As personagens que não sabem muito bem o que esperar dos outros (e de si mesmas). A interacção humana como coisa imperfeita, mal acabada, dúbia, frágil, indiscernível. E, também por isso, assustadora e comovente.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges