Herberto: 80 anos

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação,
¿e se me tocam a boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na fase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

[in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, 2008]



Comentários

One Response to “Herberto: 80 anos”

  1. isabel ribeiro on Novembro 27th, 2010 23:20

    HH insubstituível. Foi na Poesia Incompleta que o recordei. Que venham mais anos e mais poesia, por mais escatológica que surja aos olhos de muitos leitores, HH é uma peça fundamental no nosso panorama poético. Adoro.
    Recordo aqui:

    Fonte – I

    Ela é a fonte. Eu posso saber que é
    a grande fonte
    em que todos pensaram. Quando no campo
    se procurava o trevo, ou em silêncio
    se esperava a noite,
    ou se ouvia algures na paz da terra
    o urdir do tempo —
    cada um pensava na fonte. Era um manar
    secreto e pacífico.
    Uma coisa milagrosa que acontecia
    ocultamente.

    Ninguém falava dela, porque
    era imensa. Mas todos a sabiam
    como a teta. Como o odre.
    Algo sorria dentro de nós.

    Minhas irmãs faziam-se mulheres
    suavemente. Meu pai lia.
    Sorria dentro de mim uma aceitação
    do trevo, uma descoberta muito casta.
    Era a fonte.

    Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
    A lua formava-se
    com uma ponta subtil de ferocidade,
    e a maçã tomava um princípio
    de esplendor.

    Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
    perdeu-se e renasceu.
    Hoje sei permanentemente que ela
    é a fonte.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges