Hermenêutica das primeiras páginas dos jornais desportivos

Um dos meus maiores prazeres, sempre que me abeiro todas as manhãs do quiosque mais próximo, para ler as gordas dos jornais, é contemplar as capas dos diários desportivos. Que manchete abstrusa nos reservará hoje o Record? Que benfiquismo é que A Bola nos atirará hoje para os olhos? E a verdade é que nunca me desiludem. Ainda há dias, o Record sugeria em letras garrafais que o jogador Ramires, por ter marcado um golo salvador ao minuto 90, era «um bom petisco». Trocadilhos com atum em lata, quem é que lhes resiste? [Faço aqui um parêntesis para confessar um sonho que tive há uns tempos: estando o Benfica hesitante na escolha de um novo treinador ou ponta-de-lança, a capa d’ A Bola traria, entre as fotos recortadas dos ditos treinadores ou pontas-de-lança, a manchete: LUZ INDECISA].
Vem isto a propósito do jogo de hoje, entre o meu Sporting e a Fiorentina (que já foi de Rui Costa), um daqueles momentos em que os sportinguistas podem exercer a fundo o seu sportinguismo; isto é, ficarem em catatónico estado de sofrimento e incerteza, sempre na iminência do mais que anunciado desastre, sempre na iminência da mais que inesperada glória. Enfim, sensações extremas e inebriantes que não estão ao alcance dos adeptos do F. C. Porto (condenados à pobreza emocional e ao tédio das vitórias sucessivas) nem aos adeptos do Benfica (que perdem ainda mais vezes do que nós, mas vivem intoxicados com as suas ilusões de grandeza).
Ao que consta, Paulo Bento quis entusiasmar o plantel sportinguista com um discurso sobre o Titanic, embora não me pareça que entre os jogadores da Fiorentina esteja algum sueco chamado Iceberg. À falta de conhecimento dos clássicos gregos, Bento recorreu ao filme choramingas (talvez com a voz da Celine Dion ao fundo, como sereia estridente a avisar para o perigo do naufrágio), mas isso é o menos, desde que Liedson se volte a lembrar como é que se faz aquela coisa com quatro letras que começa por «g», o Pereirinha entre de início e o Polga faça um reboot qualquer que lhe apague os fantasmas das últimas exibições europeias.
Como bom sportinguista, aguardo o jogo com aquela fé inusitada numa vitória sem espinhas (3-0, com hat trick de Liedson e meia-dúzia de defesas impossíveis de Rui Patrício), fé que o mais certo é esboroar-se logo ao fim de dez minutos, mas enfim. Logo se verá. Na verdade, o propósito deste post despropositado era fazer um prognóstico, antes do jogo, sobre os títulos que a imprensa desportiva exibirá amanhã em grandes parangonas. Em caso de derrota, arrisco “O Titanic foi mesmo ao fundo” ou “Gilardino de gelo afunda Sporting”. Em caso de vitória, talvez “Liedson salva-vidas” ou “Príncipe da Renascença” (sobre foto de Paulo Bento). Aqui ao lado, dizem-me que “Príncipe da Renascença” é capaz de ser muito rebuscado. Lembro-me do Ramires bom petisco e concordo. Mas tenho pena, porque o que eu gostava mesmo era de ver, digamos que na primeira página de O Jogo, um sorrisinho vitorioso do treinador do Sporting sob uma única palavra: “Maquiavélico”.



Comentários

3 Responses to “Hermenêutica das primeiras páginas dos jornais desportivos”

  1. NM on Agosto 26th, 2009 17:02

    Prezo muito o discurso “titánico” de Paulo Bento por ser directo e claro mas no contexto em que se insere podia contar a lenda do Barão de Forrester que diz que quando o seu barco se afundou no Douro foi tão avarento que não libertou os seus bolsos do peso das moedas e foi ao fundo com a sua riqueza. Talvez alguns dos meninos bonitos do Sporting percebessem a mensagem.

    Noutra nota, o título “Maquiavélico” é o género de coisa que qualquer jornalista fica invejoso de não chegar lá primeiro! Muito bom mesmo…

  2. Interjeicões on Agosto 26th, 2009 23:43

    Olá,

    Visite o blogue de crónicas humorísticas sobre a actualidade política, um bocado à semelhança do seu próprio, blogue Interjeições, em interjeições.blogspot.com .

    Abraço

    Escrevinhador

  3. Rui Dantas on Agosto 27th, 2009 21:25

    a publicidade subliminar é proibida por lei…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges