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HH

Amanhã, o novo opus de Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita (Assírio & Alvim), começa a chegar às livrarias. É, não tenham dúvidas, um dos maiores acontecimentos editoriais do ano. E para o comprovar basta que leiam três dos poemas inéditos do livro:

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
¿e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

*

aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilação, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica

*

rosto de osso, cabelo rude, boca agra,
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
¿em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma



Comentários

11 Responses to “HH”

  1. FNP on Outubro 8th, 2008 21:53

    olha lá isto de ter direito a livros especiais antes do tempo não é literariamente (falando) justo! pelo menos podias ter publicado esta merda (falando à MEC) apenas amanhã! Deixaste-me melancólico, triste e invejoso, com uma chama de pulgas a debulhar lentamente e interminavelmente pela minha mão adentro…

    • José Carlos Cardoso on Outubro 9th, 2008 0:38

      O maior poeta vivo, cada vez tenho menos dúvidas (e, discordando do Pedro Mexia), agora, claramente indigesto para os estômagos frágeis dos humanistas suecos. Está a salvo desses “acidentes” pela sua obra (e pela concepção que tem de Obra). E, ao limite, não se trata de mais nada.

      • fallorca on Outubro 9th, 2008 9:10

        Já cá canta ;)

        • AnaMar on Outubro 9th, 2008 9:48

          Pois eu tive o deslumbramento de descobrir Herberto Hélder, por acidente, num comentário que uma vez me foi deixado. E não descansei enquanto não confirmei que existia. e não sei o que me doeu mais: o orgulho por tal desconhecimento ou o que perdi ao logo do tempo em que não sabia destas palavras numa poesia que se encaixa em mim, numa perfeição, que muitas vezes, tantas vezes, gostaria de ser eu a escrever alguns dos poemas.

          Acreditem que só por esta descoberta, agradeço às novas tecnologias, eu que sou uma novata nestes espaços, ainda com alguns dissabores de encontrar quem parece e não é quem diz ser…

          Mas aos poucos, vou sabendo (saberei?) distinguir o falso do genuíno, eu que me entrego e não me escondo .

          Abraço. E mais uma vez parabéns pelo excelente espaço!

          • joao leal on Outubro 9th, 2008 11:46

            Por estas três amostras, confirma-se Nâo há pachorra para poesia deste gajo. Que afectado imprestável…

            • Francisco on Outubro 9th, 2008 16:30

              Por falar em afectados imprestáveis! Estes três poemas têm tudo: beleza, fulgor, actualidade (das energias alternativas ao acordo ortográfico vem aqui tudo), originalidade…

              É perfeitamente legítimo não se gostar da obra do Herberto, mas dizer que é um imprestável é uma boçalidade sem nome. O homem não entra nas panelinhas críticas, não dá entrevistas, recusa prémios, não chateia ninguém. Que diabo, isso tem de ser respeitado. E sobre a majestosa torre de marfim académica que reclicará tudo o que vem escrito neste livro durante os anos vindouros, não se pode culpar o autor. Segundo consta é abertamente anti-academia.

              • Joao leal on Outubro 9th, 2008 20:39

                Francisco,

                tudo bem. na opinião (estética) estes poemas (como os demais) não são bons. Fale-mde da prosa e logo lhe direi o oposto.
                quanto aos méritos de ser quem se pôs de lado numa pretensa fuga aos academicos e aos holofotes, por favor, que mérito há nisso?

                • Francisco on Outubro 9th, 2008 21:20

                  E existe algum demérito? Aqueles que não agem de acordo com os preceitos da matilha são “afectados”? E de onde vem o “imprestável”?

                  O João não gosta e está no seu direito, mas não acho que isso justifique tanto insulto gratuito.

                  • Bibliotecário de Babel – O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (8) on Outubro 9th, 2008 21:39

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                    • Mapas de Espelho on Outubro 10th, 2008 0:41

                      “… a linha
                      de ignição das pupilas”

                      Há quanto tempo não me saltava para os olhos um verso assim!?

                      Obrigadissíma pelos poemas … coloquem mais post!
                      Nós compramos o Herberto a mesma.

                      • Bibliotecário de Babel – Facto curioso on Outubro 10th, 2008 8:39

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