Hotel pós-moderno

Ainda no restaurante, vi-o atarefado sobre o bloco A4, fazendo desenhos e riscando, com força, as letras maiúsculas. Depois, aquelas dezenas de pessoas acabaram os seus cafés, abandonaram as mesas e as conversas, entraram no autocarro e voltaram ao Auditório para mais uma sessão, a sexta, das Correntes d’Escritas. Ele, o valenciano Alberto Torres Blandina (n. 1976), seria pouco depois o primeiro a intervir num debate com o verso «Espalho sobre a página a tinta do passado» (Nuno Júdice) como mote.
Lá apareceu o bloco A4, transformado por Blandina num powerpoint manual, sucessão de imagens em torno de uma ideia: a de que o século XX, ao contrário do que geralmente se pensa, não foi o século de Pablo Picasso, mas sim o de Marcel Duchamp. Picasso revolucionou a pintura, é certo, mas não deixa de ser o ponto de chegada, o corolário, do que havia antes. Já Duchamp virou tudo de pernas para o ar (incluindo o urinol que se tornou Fonte e objecto de museu), reinventando o próprio conceito de arte e antecipando as formas de criação do século XXI. Para Blandina, depois de tudo já ter sido feito, só faz sentido fazer de novo, fazer de outra maneira. O remake, tão comum no cinema, está ainda por explorar devidamente em literatura. É certo que Borges criou o extraordinário Pierre Menard, um escritor moderno que volta a escrever Dom Quixote, um Dom Quixote igualzinho ao de Cervantes (coincidem palavra por palavra) mas ao mesmo tempo radicalmente distinto, porque os séculos que os viram nascer em nada se assemelham. Outros exemplos de remake, como os pastiches de Jane Austen com zombies, são literariamente menos interessantes, mas as possibilidades que se abrem são ilimitadas. Nas Correntes, o escritor espanhol, que também é dramaturgo e vocalista da banda Niñamala, defendeu ainda que os ficcionistas actuais devem olhar para os livros do passado como os rapazes suburbanos olham para os seus Citröen Saxo: vendo neles a base para todo o tipo de upgrades tecnológicos e estéticos, ao gosto do utilizador. Para Blandina, vai sendo tempo de abrir alas ao tunning literário, por muito que esta expressão nos pareça um oxímoro.
Uns dias depois, noutro almoço, fiquei sentado ao lado de Alberto e ele mostrou-me o último romance de Agustín Fernández Mallo: El Hacedor (de Borges). Remake (Alfaguara, 2011). Remake, lá está. «Vim a lê-lo no avião. Corresponde àquilo que eu mencionei: a estrutura é igual à do livro do Borges, o número de textos e os títulos são os mesmos, mas a partir daí o Mallo construiu o seu universo próprio.» Menino bonito da crítica espanhola, Mallo assume a escrita como experimentação. Já Blandina, surpreendentemente, nem por isso. O romance que publicou recentemente em Portugal (Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio), apesar da escassa verosimilhança das suas histórias, não deixa de ser uma narrativa convencional. «Sim, como escritor em nome próprio não arrisco muito», admitiu. «Deixo os vanguardismos para as criações colectivas.»
Falou-me então do Hotel Postmoderno, um projecto que nasceu na Internet, a várias mãos. Quatro amigos abriram um blogue e começaram a erguer um romance em conjunto, nunca se sabendo quem escrevia o quê e menos ainda quem corrigia os textos colocados online. Adeus autoria, olá contaminação. «Trabalhamos como uma banda de rock na fase do improviso.» Surgiram depois um romance histórico «com estrutura de DVD» (De La Habana, un Barco) e uma narrativa multimédia em forma de reality show, com seis concorrentes em busca de um prémio que é a morte (Suicídame). No território da literatura digital (a «digiteratura», como lhe chamam) exploram-se as potencialidades da tecnologia e integram-se outras artes, outras formas de expressão: teatro, música, fotografia, rádio, vídeo, interactividade com os leitores através das redes sociais.
Isto é só o princípio. No grande hotel da pós-modernidade não faltam quartos, infinitos quartos, à espera de quem os queira ocupar. Pela minha parte, gostava de ver este afã do lado de cá da fronteira. E nem precisava de ser um hotel. Já me contentava com uma pensão de três estrelas.

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges