Infância dourada

capa 'Mundo para Julius'

Um Mundo para Julius
Autor: Alfredo Bryce Echenique
Título original: Un Mundo para Julius
Tradução: Miranda das Neves
Editora: Teorema
N.º de páginas: 509
ISBN: 978-972-695-743-0
Ano de publicação: 2008

Certa vez, referindo-se a Mario Vargas Llosa, seu amigo e compatriota, Alfredo Bryce Echenique (n. 1939) recorreu à literatura francesa do século XIX para ilustrar o que os separa. Enquanto Llosa seria um escritor de linhagem flaubertiana, racional e capaz de mergulhar meses a fio nos arquivos para documentar as suas ficções, ele assumia-se como um stendhaliano puro e duro: “O que me interessa é a emoção, o sentimento.”
Se toda a obra de Echenique reflecte esta procura de uma discursividade subjectiva, quase sempre filtrada por uma finíssima ironia, em nenhum livro a “emoção” e o “sentimento” nos surgem tão à flor da pele como neste magnífico Um Mundo para Julius (1970). Considerado o melhor romance peruano de todos os tempos (num inquérito da revista Debate», feito a 80 escritores e críticos), só agora, quase quatro décadas depois, chega às livrarias portuguesas, com chancela da Teorema — editora que já publicara Guia Triste de Paris (1999) e A Vida Exagerada de Martin Romaña (2005).
Narrativa proliferante, com mais de 500 páginas e dezenas de histórias secundárias habilmente cerzidas, Um Mundo para Julius tem qualquer coisa de monumental na sua arquitectura, como se esta interiorizasse a grandeza e harmonia dos palácios que descreve. Retrato colectivo espantosamente nítido, permite-nos observar em microscópico detalhe como era a vida opulenta das famílias mais abastadas de Lima, durante os anos 50 e 60 do século XX. Está lá tudo: o luxo, a arrogância, os abismos entres as classes sociais, a ostentação, os segredos, a felicidade fátua ou as pequenas tragédias que a hipocrisia varre para debaixo do tapete.
No centro deste mundo, protegido da realidade por uma redoma de cristal, está Julius, o mais novo de quatro irmãos, descendente de vice-reis e presidentes da república, órfão de pai, menino frágil que as amas enchem de beijos e filho de uma mãe idolatrada na sua beleza, mas sempre distante. Susan, essa mãe etérea, quase cinematográfica, tratando toda a gente por “darling“, sempre a beber Coca-Cola gelada para acalmar os nervos, volta a casar, submissa, com um arrivista, Juan Lucas, empresário que só pensa em jogar golfe, em trazer o toureiro espanhol Briceño ao Peru, em pavonear-se nos cocktails do Country Club e em encher malas de pele de porco com camisas de seda muito bem engomadas. Para os dois, a existência só faz sentido se for uma eterna dolce vita.
Numa das muitas cenas que descrevem a vida doméstica, Juan Lucas está a contemplar, através de um janelão da sua nova casa, o jardim que se prolonga pelo campo de pólo, enquanto bebe vinho e estira “os braços de tweed paralelos aos talheres de prata”. O ricaço está em êxtase com o que construiu. Tudo se lhe afigura exacto, mesmo a interferência visual de uma “fruteira cheia de cor”, até que algo perturba tão exagerada perfeição: “A madeixa loira e maravilhosa de Susan descaiu, tapando o verde com ouro, mas algo de feio lhe entrava também pelo rabinho do olho. — O Universo — anunciou Celso [um dos mordomos].»
Eis um exemplo lapidar dos recursos irónicos que tornam única a escrita de Echenique. O Universo que Celso introduz na sala é o jardineiro recém-contratado, rapaz do povo, tosco, trazido das montanhas onde o baptizaram com o estranho nome. Mas é também, de forma literal, o universo verdadeiro, a materialização do que fica para lá das grades que cercam a relva e a piscina, esse Peru miserável que as classes altas, fechadas sobre si mesmas, ostensivamente ignoram.
A charneira entre as duas realidades é Julius, o rapazinho flor de estufa, apaparicado e reprimido, que aprende a lidar com a perda traumática da irmã (Cinthia), com a indiferença dos mais velhos e a crueldade dos colegas de turma, à medida que passa por sucessivos colégios de freirinhas americanas. Desde pequeno, Julius sente-se atraído pela secção da criadagem, que no palácio se assemelha a “uma verruga no rosto mais belo”. É neste círculo formado por Vilma (a ama proscrita), Nilda (a cozinheira resmungona), mais os mordomos e o restante pessoal menor, que ele encontra amparo, consolo, afecto. E por isso vai intuindo, enquanto os irmãos se perdem em futilidades de playboy, as outras Limas que ficam para lá do bairro chiquérrimo de San Isidro.
Echenique nunca escondeu o carácter semi-autobiográfico do livro. A sua infância foi quase igual à de Julius. Ao narrar o doloroso processo de crescimento de uma criança privilegiada, fê-lo com conhecimento de causa. Mas o que torna este romance um clássico não é o “sentimento”, a “emoção” ou sequer a nostalgia das suas memórias. É antes o experimentalismo formal com que abriu para a literatura latino-americana caminhos alternativos ao realismo mágico, partindo as frases, alternando registos (do monólogo interior à sobreposição de vozes simultâneas), fazendo hiatos líricos, acumulando suspensões e saltos diegéticos — todo um conjunto de efeitos que provocam no leitor espanto e maravilhamento.
Pena é que a tradução fique aquém do desejável, sobretudo em questões de ritmo e nos coloquialismos. A revisão, descuidada, não ajuda.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

2 Responses to “Infância dourada”

  1. LIa on Abril 2nd, 2008 9:19

    Para não variar, zm, fiquei cheia de vontade de ler o livro. Talvez seja este o tipo de ficção que me pode resgatar da dificuldade que tenho em pagar em livros ultimamente.

  2. Manolo on Novembro 2nd, 2008 3:35

    Gran reseña sobre esta gran novela. Bryce imprime en cada libro una ironía y humor negro difícil de encontrar en otros autores. A pesar de ser extensa esta novela, se deja leer, cuando menos piensas ya estas (lamentablemente) por acabar. Un abrazo.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges