Intermitências
Se há estatuto ingrato, hoje, é o de freelancer. Pelo menos em Portugal. Teoricamente, o trabalhador a recibos verdes deve receber mais do que um trabalhador por conta de outrém, para compensar o risco da precariedade e os vários descontos obrigatórios (IRS, Segurança Social). Mas da teoria à prática, já se sabe, vai um abismo. O tempo é de vacas magras e de pagamentos não menos esquálidos (sobretudo se comparados com o que se pagava, na comunicação social, durante a década de 90). Um profissional independente tem hoje de trabalhar muito mais para ganhar o mesmo e, se por acaso se queixa, ainda o olham de lado, como quem insinua que atrás da porta estarão, no mínimo, centenas de estagiários, ex-estagiários ou eternos estagiários dispostos a bulir o que for preciso, à borla ou quase.
Resumindo, a liberdade do freelancer é muito relativa, uma vez que se vê obrigado (na maioria dos casos, como o meu) a multiplicar as suas fragmentárias fontes de rendimentos. Em vez de um emprego certo, tem vários trabalhos incertos. E uma lista de prioridades, deixa cá ver o adjectivo, tramada. Sim, tramada.
Tudo isto para dizer que as intermitências deste blogue, hélas, vão continuar a acontecer mais vezes do que eu gostaria que acontecessem. C’est la vie.
Comentários
10 Responses to “Intermitências”
Got something to say?
- Depois de Leonard Cohen e Lou Reed (salvo as devidas distâncias), eis um outro dilema para quem não tem o dom da ubiquidade em 24 de Julho de 2008
- O declínio dos conquistadores em 24 de Julho de 2008
- Encostem-se à parede em 24 de Julho de 2008
- portugal em 24 de Julho de 2008
- Segundo round em 24 de Julho de 2008
- Biblioteca de Arte da Gulbenkian no Flickr em 23 de Julho de 2008
- Termos alfarrabísticos em 23 de Julho de 2008
- Novo site da APEL em 23 de Julho de 2008
- Sortilégios, incensos, magias em 22 de Julho de 2008
- Um conto perfeito em 22 de Julho de 2008


Receba por e-mail
del.icio.us
DoMelhor
EuCurti
feed RSS
email diário



Temos pena (de não poder ler posts com mais frequência) e muita compreensão.
José Mário,
Seria bom, que as pessoas a trabalharem a recibos verdes, tivessem conhecimento de que estes, na maioria das vezes, funcionam como contratos camuflados de trabalho. Quero dizer com isto que as empresas exploram as pessoas- estas, ao cumprirem um horário laboral, ao trabalharem sob a ordem de uma determinada direcção usufruindo de um salário fixo mensal, passam a possuir um estatuto de trabalhador contratado, e, como tal, deveriam usufruir das regalias inerentes a esse mesmo estatuto - lançando–as para uma situação ilegal, imoral. As pessoas acabam por viver numa situação ilegal, porque precisam. A empresa, a criadora dessa ilegalidade, que se aproveitou da necessidade dos seus subordinados e pratica a ilegalidade sabe, ainda por cima,que o silêncio será mantido e, que a ela, nada lhe acontecerá. Este é um dos casos dos recibos verdes. O que foi feito politicamente? Escandalosamente nada.
Conheço milhares de casos de empresas que trabalham assim. O que é feito individualmente? Nada. Eu, por mim, já levei uma empresa a tribunal. Ganhei, tinha de ganhar.
Segundo caso, o que referes com toda a razão.
O que andam os políticos, preocupados com as questões sociais, a fazer?
Porque é que os jornalistas, os escritores e outros grupos da sociedade - já não falo dos políticos - não se unem e formam um grupo de pressão tão forte que o assunto passe, não a ser discutido, mas resolvido? José Mário o que faz falta neste país é a prática e um grupo forte , de grandes dimensões, de convicção, de verdade. Tenho a certeza de que, se esse grupo de pressão fosse criado, actuando em diversas áreas necessitadas, isto mudaria. Mudaria, sim.
Quanto às intermitências deste blogue, que vão continuar a acontecer mais vezes do que tu gostarias, outra coisa não seria de esperar. É que para quem tem de ter ” em vez de um emprego certo, vários trabalhos incertos” muito é aquilo que dás. Como é possíve, que numa área a exigir tanta concentração, tanta perda de tempo, seja possível fazer o que tu fazes?
Um profissional independente tem hoje de trabalhar muito mais para ganhar o mesmo e, se por acaso se queixa, ainda o olham de lado, como quem insinua que atrás da porta estarão, no mínimo, centenas de estagiários, ex-estagiários ou eternos estagiários dispostos a bulir o que for preciso, à borla ou quase.
bem vindo ao clube. mas reconhece que ainda há aquela vantagem de não se ter de obedecer (ou mandar à merda) chefes estúpidos
[…] Texto - Intermitências […]
Desejo que a situação melhore por aí (por aqui, já não guardo mais esperanças).
Venho vindo aqui, dia sim e outro também, pra ver as novidades.
Abração!
Sem mais para dizer que lamento caro Zé Mário. E boa sorte. Nós cá continuaremos a ir verificando fielmente o melhor blogue de 2008 (continuo a manter a opinião, aliás, cada vez é mais forte).
Abraço e boa sorte.
Não deixando de agradecer a solidariedade dos comentadores, tenho que esclarecer uma coisa: ao contrário da esmagadora maioria dos verdadeiros precários, não me posso queixar. Tenho vários trabalhos, é certo, mas de que gosto muito e razoavelmente remunerados (no tal contexto de vacas magras que descrevi). Além disso, esta minha situação foi por mim escolhida, ninguém me despediu. Não ter que obedecer a chefes e poder recusar o que os outros nos querem impor (como assinalou a Ana Cristina) é um luxo sem preço. Isso e poder ser pai a 100%, não a 50 ou a 30.
Resumindo, há momentos em que não consigo dedicar-me a este blogue como gostaria (e tenho pena), mas a verdade é que este blogue existe e os hiatos serão em devido tempo compensados. Na situação em que estava antes (10 a 12 horas diárias por conta de outrém), nem sequer blogue haveria.
Se fosse SÓ mandar à merda pitbulls redactoriais, açulados pelas administrações, ainda era merda a menos. O pior, quanto a mim, foram sempre os merdosos dos “colegas” (com a generalizada conotação, colegas são as putas…) que me rosnavam as canelas pelas rádios e jornais por onde passei.
Hoje vivo muito melhor à pala de recibos rubros sangue, do que vivia esperançado no convívio com os “verdes”… que te quiero verdes
Pior e bem mais ingrata é a situação dos desempregados, se me permite.
[…] continuam a acontecer e as razões são as mesmas de sempre. Esta semana, porém, houve uma agravante: a instabilidade da rede TubarãoEsquilo, com largos […]