Ipsis verbis
Não podia estar mais de acordo com o texto publicado por António Guerreiro, no suplemento Actual do Expresso:
«O “protocolo de colaboração” celebrado no final da semana passada entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora pode ser uma benéfica operação, mas revela publicamente uma verdade terrível: que uma editora não consegue hoje sobreviver pelos seus próprios meios se o núcleo central do seu catálogo é a literatura portuguesa – mesmo que seja uma parte razoável do cânone do século XX. Pensar que o famigerado mercado ameaça de extinção os livros de Fernando Pessoa, é pura e simplesmente obsceno. E chegou-se a este estado de catástrofe sem grandes resistências nem gritos de alarme, como se o que aconteceu e continua em curso não fosse um desastre obscuro. Pelo contrário, aqueles que foram traçando, desde há muito tempo, um quadro negro do estado da situação fizeram figura de criaturas agoirentas. E, no entanto, basta hoje entrar nas livrarias – e, com maioria de razão, se entrarmos com o objectivo de procurar um livro que escapa ao mainstream editorial e das “novidades” – para perceber que elas repousam hoje sobre um crime. Ou melhor: sobre uma cadeia de crimes perpetrados com a colaboração (nem sempre consciente dos seus efeitos nefastos) de muita gente e muitas instâncias. A partir de certa altura, o caminho único e coercivo revelou-se sem alternativas – há apenas um pequeníssimo espaço para alguns devaneios de gente freak e diletante, como aliás reconhecia, numa entrevista, há menos de um ano, Vasco Teixeira, responsável editorial da Porto Editora: “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, dir-lhe-ei que não. Quando muito, teremos algumas edições artesanais (…). E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares que os amantes de poesia comprarão.” Esperemos que o poderoso assinante do “protocolo de colaboração” não se aplique agora, que tem ainda mais poder para isso, na realização da sua própria profecia.»
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