Já ninguém dá o desconto à FNAC (e a FNAC também não dá o desconto a ninguém)

Nos últimos dias, muitas têm sido as reacções na blogosfera à decisão da FNAC de só oferecer os seus 10% de desconto no preço dos livros (arma com que conquistou a sua invejável quota de mercado) a quem tenha o respectivo cartão de cliente. O blogue da Ler juntou os links todos aqui (embora se tenha esquecido deste) e vale a pena dar uma vista de olhos por este justificadíssimo exemplo de indignação colectiva.
Para não destoar, também eu considero que esta é uma decisão absurda e uma lamentável falta de respeito pelos muitos consumidores que fizeram da implantação da FNAC no nosso país um sucesso fulminante e um case study internacional. Também eu enquadro este “tirar do tapete” (para usar a imagem do Pedro Vieira) como mais um sintoma da decadência da loja, que se reflecte numa crescente massificação do gosto (nunca o termo “supermercado da cultura” lhe assentou tão bem) e no quase desaparecimento de algumas secções (o caso da poesia, referido por Osvaldo M. Silvestre, é gritante).
Ou seja, se a FNAC deixou de nos dar desconto, pelos vistos nós também deixámos de dar desconto à FNAC. E isto é uma oportunidade de ouro para as livrarias que tiverem a inteligência de aproveitar este súbito ataque de cupidez, mascarado de chantagem comercial mesquinha. Sem a cenoura do desconto, muitos leitores não hesitarão em procurar livros noutros lados. E eu estarei entre esses leitores.
Já agora, aproveito para confessar uma coisa. De cada vez que chegava a uma caixa da FNAC e me perguntavam “tem cartão FNAC?”, sentia que a minha resposta negativa despertava um certo olhar de desprezo no funcionário, olhar assassino (decerto treinado em acções de formação) que significava algo como: “Se não tens cartão FNAC, o que é que estás aqui a fazer? Vai-te embora, pá, tu não mereces respirar o ar que circula nesta loja.”
Admito que fosse um exagero meu, uma paranóia como outra qualquer, mas a verdade é que da próxima vez que chegar com uma pilha de livros à caixa e disser que não, não tenho, e não, não quero ter o cartão FNAC, o funcionário passará as minhas compras pelos raios infra-vermelhos com um sorrisinho cruel (decerto treinado em acções de formação). O sorrisinho sarcástico e sacana de quem se vinga de um crime que não cometemos.
Comentários
12 Responses to “Já ninguém dá o desconto à FNAC (e a FNAC também não dá o desconto a ninguém)”
- Melancólicas criaturas em 20 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 20 de Maio de 2012
- Um rato através da anaconda em 20 de Maio de 2012
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
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Também eu me sinto atacado quando respondo que não tenho cartão FNAC, acho que os gajos são mesmo treinados para isso. Por isso é que eu vou mais à Bertrand, quando eles perguntam se sou leitor Bertrand respondo orgulhosamente que sim, mais orgulhoso ainda porque só lá ponho os pés no único dia do mês que tenho mais 10% de desconto a juntar aos pontos normais
Cheers
Queria apenas indicar que o post que escrevi e que se encontra linkado nesse grupo não é um texto de “indignação” (quem o ler concluirá isso). Da FNAC (com quem lidamos desde Fevereiro de 2006), e por paradoxal que isso possa parecer, não temos senão coisas positivas a referir. O que me inquieta, como disse, é o que pode estar por baixo desse topo do icebergue que o final do desconto sobre o PVP representa. Espero, ainda, que seja apenas o meu pessimismo inato…
Pedro Marques
Livros de Areia Editores Lda.
http://www.livrosdeareia.com
[...] Mário Silva, no Bibliotecário de Babel: «Nos últimos dias, muitas têm sido as reacções na blogosfera à decisão da FNAC de só oferecer …Ler juntou os links todos (aqui) e vale a pena dar uma vista de olhos por este justificadíssimo [...]
[...] José Mário Silva escreve aqui sobre a polémica o fim dos descontos da Fnac (eu sempre tive descontos na Bertrand e na Barata, portanto, em termos de descontos, para mim [...]
Caro Zé Mário, já agora junta ao monte a minha opinião , deixada no dia 2 mo meu estaminé
Como fornecedor FNAC de títulos ligados ao Judaísmo já tinha reparado que a estratégia de massificação do gosto tem feito esta secção (outrora fértil em títulos) quase que desaparecer.
O mais engraçado é que só para a Byblos (com uma loja e sítio online) forneço quase tantos títulos ligados ao Judaísmo (da minha editora) quanto fornecia para todas as FNAC há um ano, o que prova que existe um potencial para esta secção que não está explorado.
Quem decidiu que não existe potencial para esta e outras secções na FNAC? Quem disse que não existe mercado para o fundo editorial? Como o Sr. Pedro Marques disse num comentário anterior, também temo que o final do desconto seja apenas a ponta do iceberg.
emiele,
Já acrescentei.
Eu tenho cartão FNAC. Será que vou ser perseguido por o possuir?
A FNAC não é o ministério da Cultura, tem todo o direito em tomar as decisões que bem entender.
E, nós temos o direito de optar pela FNAC ou por outra loja.
Seria bom que quem vai habitualmente à FNAC fizesse sentir à Sr.ª Directora Geral que esta nova estratégia só pode conduzir à ruína, nomeadamente passando a comprar os livros, cd’s, dvd’s e o que quer seja noutros locais.
Seria bom que os editores se unissem e acabassem com o desconto cavalar que é atribuído à FNAC (mais rappel, mais custos promocionais, mais comparticipações na abertura de lojas e etc.), até aqui por causa do argumento de que esse desconto permitiria fazer os 10% ao público.
Seria bom, mas neste país fala-se muito e não se faz nada. A FNAC vai alegremente aumentar as receitas e os editores, alguns, estarão cada vez mais próximos do seu último estertor.
Acho muito bem que se exprima indignação, mas não estará este texto a ser um pouco exagerado ao interpretar reacções de funcionários dessa forma ?
Por outro lado, embora agora todos pareçam divertir-se a atirar pedras à FNAC, antes da sua implantação, os livreiros não pareciam ter muito respeito pelos potenciais clientes. Eu sei que notei um claro antes e depois da FNAC.
Noto também um certo desprezo pelos clientes de supermercados (talvez por se oporem às lojas “gourmet” onde apenas os entendidos se sentem bem e entre pares) e a apologia das mercearias de bairro (livrarias de rua ?) que não pertencem a grupos tenebrosos do lucro acima de tudo (como se essa mentalidade não estivesse presente em todas as forma de negócio).
A FNAC pode fazer o que lhe apetecer desde que não infrinja a lei geral. Nós como consumidores também temos a liberdade de gastar o nosso dinheiro da forma que melhor entendemos, mas sem dramatismos. Não sei é se as outras empresas conseguirão aproveitar esta “oportunidade”, ou sequer se os consumidores vão “desertar” em massa das FNAC’s, mas isso não uma preocupação minha. Frequento várias livrarias e também compro livros on-line em lojas nacionais e internacionais, pelo que escolha não me falta.
Como ex-funcionária da FNAC tenho gosto em explicar-vos o porquê dos olhares desejosos de vingança dos funcionários perante clientes sem cartão Fnac que insistem, obviamente no seu devido direito, em não aderir ao mesmo. É que para além dos funcionários Fnac serem MUITO MAL pagos (e acreditem que dinheiro ali não falta a não ser quando se trata de pagar a quem realmente trabalha e dá a cara em condições e horários deploráveis), parte dos seus ordenados depende da quantidade de cartões Fnac que conseguem levar os clientes a fazer. Trata-se de um trabalho de equipa, se a loja conseguir fazer determinado número de cartões num mês, todos levam os bolsos mais cheios para casa nesse mês. Claro que esse número a atingir roça o impossível na maioria das vezes. Volta-se para casa com menos ainda do que aquilo que já era tão pouco. Ainda assim, ocasionalmente, para os 3 funcionários que mais cartões conseguiram fazer são oferecidos prémios (restos de máquinas desactualizadas que os fornecedores oferecem aos directores já cheios pelos seus LCD´s topo de gama e as suas máquinas de filmar, telemóveis, máquinas fotográficas, etc). Daí os olhares vingativos. O cliente tem o seu direito de não querer aderir ao cartão Fnac. O funcionário sabe-o. Mas no final do mês a fome aperta, as contas estão por pagar. Não é uma luta pessoal. É uma luta pela sobrevivência.
Eu já trabalhei na fnac, e para alem de não ter tido formação, eu adorava quando as pessoas não tinham cartão fnac, pois poupava-me a um operação inutil, já para nao dizer que muitas vezes o cartão está desmagnetizado e tinha de introduzir os numeros a olho, julgo que o mesmo se passava com os meus colegas, por isso acredite que a sua percepção está completamente errada, pelo menos no que me toca!