José Manuel Rodrigues da Silva (1939-2009)


Fotografia de Margarida Ferra

Morreu o Rodrigues da Silva. Esta madrugada, vítima de um cancro. Morreu o jornalista exemplar, no activo desde 1 de Agosto de 1968 (tinha a carteira profissional n.º 161), com passagens por jornais entretanto extintos (o Diário Popular, o Diário de Lisboa, o semanário O Jornal) e uma longa permanência no Jornal de Letras, de que foi editor desde 1992 e com o qual por vezes quase se confundia. Homem atento a todos os aspectos da actividade cultural, foi um cinéfilo voraz e um leitor não menos voraz, tendo entrevistado nas últimas décadas todos os grandes escritores e cineastas portugueses. Escrevia textos longos num estilo característico, feito de encadeamentos e deambulações, entusiasmos e embirrações. Contra a mediocridade reinante, defendeu sempre a arte e os artistas que exigem, do público, não apenas tempo e atenção, mas também inteligência e sentido crítico. Nunca escondeu o seu posicionamento ideológico (à esquerda das esquerdas convencionais) ou a sua insatisfação com o estado do mundo.
Morreu o Rodrigues da Silva, o camarada, o jornalista. Mas morreu também, e isso é que dói mais, o Zé Manel. O amigo atento. O incansável remetente de postais ilustrados com as palavras certas. O homem que foi uma referência para várias gerações mais novas (às vezes, muito mais novas). O professor que ensinava nas escolas secundárias, mas igualmente na mesa do café ou na redacção do jornal, e que sabia cultivar uma proximidade rara, de velho sábio e compincha. A sua principal obra, discreta e invisível como a de todos os bons editores, foi talvez essa: transmitir os fundamentos de uma ética, de um modo de estar no mundo que não passe pela resignação face ao que existe. No seu sentido mais nobre, mestre é uma palavra que lhe assentaria bem. Mas um mestre que nunca seria capaz de se assumir como tal, mais por desconfiança em relação à autoridade do que por modéstia.



Comentários

6 Responses to “José Manuel Rodrigues da Silva (1939-2009)”

  1. Livros [s]em critério » Blog Archive » Morreu Rodrigues da Silva on Janeiro 11th, 2009 0:40

    […] Bibliotecário de Babel. Notícia no […]

  2. Adeus. | Paulo Querido, em Certamente! on Janeiro 11th, 2009 1:32

    […] da Visão. Foto picada ao Bibliotecário de Babel.) Data: 11 Jan 09 01:26 Editor: Paulo Querido   Arquivo: pessoal  Tags: jornalismo, […]

  3. Clube de Jornalistas » Blog Archive » Morreu Rodrigues da Silva on Janeiro 11th, 2009 5:13

    […] Informação adicional: Bibliotecário de Babel […]

  4. André Martins on Janeiro 11th, 2009 22:23

    Lembro-me muito bem dos textos que Rodrigues da Silva (salvo erro, ele assinava apenas com os apelidos) escrevia sobre cinema para o J.L. : tenho, inclusivamente, fotocópias de alguns desses textos (acho que não preciso dizer mais nada).

    André

  5. ana on Janeiro 11th, 2009 22:34

    hoje é um dia triste

  6. ‘Não sejamos fortes…’ | Bibliotecário de Babel on Janeiro 19th, 2009 15:19

    […] memória de José Manuel Rodrigues da Silva, Margarida Ferra confiou-nos o seguinte texto: “São ínvios os caminhos do Senhor.” É […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges