Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’

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Ricardo Araújo Pereira, Francisco José Viegas, Pedro Mexia e Jorge Reis-Sá

Foi uma coisa nunca vista. Na Casa Fernando Pessoa, quinta-feira ao fim da tarde, juntaram-se mais de 100 pessoas, talvez 150 (nunca tive jeito para calcular multidões a olhómetro, fossem pequenas ou grandes, como fazem os polícias nas manifs), mais de uma centena de cidadãos portugueses que atravessaram a Lisboa entupida do fim da tarde até Campo de Ourique, para aí um quinto do total de leitores de poesia recenseados (a fazer fé nas tiragens), enfim, gente que nunca mais acabava, ocupando todas as cadeiras, encostando-se às paredes, sentada nos degraus das escadas, em bicos dos pés para tentar ver alguma coisa, gente habituée destas coisas e gente que não costuma ir a estas coisas, de repente ali todos juntos para assistir ao lançamento do livro Se me Comovesse o Amor, de Francisco José Viegas (o director da CFP), apresentado por Pedro Mexia antes de Ricardo Araújo Pereira se estrear na qualidade de diseur.
E é aqui, claro, que está a explicação do fenómeno. Ricardo Araújo Pereira tem hoje um estatuto semelhante ao de uma estrela pop ou de um futebolista de topo. Onde vai, leva uma multidão atrás, mais os flashes dos fotógrafos e as câmaras televisivas (neste caso já devidamente actualizadas: SIC em vez de RTP). A enchente deveu-se a ele, acho que ninguém terá ilusões quanto a isso, mas o Ricardo, magnânimo e meio embaraçado, teve a elegância de não roubar o protagonismo ao anfitrião.
Depois de umas breves palavras de Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, falou Mexia. Com desenvoltura e graça, apesar de ter deixado cair algumas piadas que anotara no moleskine (por estar presente Mota Amaral, “uma ex-segunda figura do Estado”). Sem entrar em grandes detalhes analíticos, Mexia explicou que o novo livro vem na sequência das obras mais intimistas que se seguiram a Metade da Vida, antologia que era também um balanço de vida. Aos poemas, dividiu-os em três tipos: 1) poemas “contemplativos”, reflexos de viagem por geografias do “fim do mundo” (até ao Sul mais longínquo, para lá da Patagónia, “onde nem Chatwin chegou”), cheios de enumerações e de uma enorme desconfiança em relação à capacidade da “literatura” descrever o real; 2) poemas de um “romantismo magoado” (na linha do que se pode ler no anterior A Noite, O Que É?, também de 2007), evocações melancólicas de um sujeito que procura, apesar de tudo, a “felicidade” e a “substância do amor” nos gestos mais vulgares e quotidianos, embora não ignore o efeito dissipador do tempo sobre as coisas; 3) por fim, O beijo de um académico em Paris, longo poema sarcástico, crítica às gerações anteriores (nomeadamente a de Maio de 68) e à forma como quiseram transpor para a arte os ímpetos revolucionários, um longo poema muito diferente dos outros todos e que acaba por ser um “corpo estranho” dentro do livro. Mexia disse ainda que não encontra grandes diferenças entre a escrita poética de FJV e a prosa dos seus últimos romances (Lourenço Marques e Longe de Manaus). “A linguagem é a mesma.”
Logo a seguir, Ricardo leu os poemas e deixou-me aliviado. Caramba, o homem afinal não é perfeito. Há pelo menos uma coisa em que ele não é bom. Mesmo nada bom. Bastante fraquinho, até. A bem dizer, uma nódoa: sentido do ritmo oscilante, voz monocórdica, problemas de dicção e uma expressividade digna de amanuense forçado a ler alto a portaria 1372/2007 do Diário da República. O humorista não queria que se rissem da (ou durante a) sua leitura e pelo menos isso conseguiu.
Depois de RAP, Francisco José Viegas a ler os seus poemas soou a Mário Viegas. O poeta agradeceu à Casa Fernando Pessoa a cedência do espaço (ai o sentido da ironia) e comoveu-se ao partilhar os próprios versos (sem ironia nenhuma). Fecho em beleza, muitos aplausos, apoteose, entusiasmo e atropelo para conseguir um autógrafo.
Conclusão: embora não dê uma para a caixa a ler poemas, exige-se a presença de Ricardo Araújo Pereira em todos os lançamentos de livros de poesia na zona da Grande Lisboa até Setembro (data do regresso à televisão). Afinal, foi para que isto se pudesse fazer que os Gato Fedorento entraram em licença sabática, não foi?



Comentários

4 Responses to “Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’”

  1. Bibliotecário de Babel » Blog Archive » Francisco José Viegas por Francisco José Viegas on Janeiro 14th, 2008 15:51

    […] Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’ […]

  2. nc on Janeiro 14th, 2008 20:40

    Pois é: o Viegas não perde uma oportunidade para se propagandear. por alguma razão por lá estava o RAP.

  3. Livros - Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’ / RetortaBlog on Janeiro 16th, 2008 11:54

    […] Livros – Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’ […]

  4. Nuno Sousa on Janeiro 16th, 2008 23:31

    ah poetas!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges