Lavagante excelentíssimo

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Lavagante — encontro desabitado
Autor: José Cardoso Pires
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 89
ISBN: 978-989-95597-1-4
Ano de publicação: 2008

Na sua obra ficcional, sobretudo a publicada antes do 25 de Abril, José Cardoso Pires recorreu várias vezes aos elementos clássicos da fábula, utilizando-os para abrir alçapões na prosa que permitissem escapar ao escrutínio da Censura ou, mais tarde, à pobreza das leituras em primeiro grau. Esta estratégia é evidente em O Anjo Ancorado (1958) e na sátira Dinossauro Excelentíssimo (1972), mas também em Lavagante — encontro desabitado, pequena novela lançada agora por Nelson de Matos, com o beneplácito da mulher e das filhas do escritor (uma das quais, Ana Cardoso Pires, se responsabilizou pela revisão e fixação do texto). Um texto que conheceu pelo menos três versões manuscritas e outras tantas dactilografadas — desenvolvimentos de um esboço publicado na revista O Tempo e o Modo (Dezembro de 1963) —, supondo-se que foi concluído antes da edição do romance O Delfim (1968).
Se o mero, apanhado a dormir pelo pescador subaquático em O Anjo Ancorado, pode ser visto como símbolo de uma certa letargia que contamina as personagens burguesas do romance, distantes da realidade das coisas, e o Dinossauro é um retrato certeiro e demolidor de Salazar (“fio de peste a alastrar por todas as vilas do império”), já a fábula do lavagante se revela muito menos óbvia. É o narrador quem a introduz, no início do segundo capítulo: “Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. ‘Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.’)”
Uma metáfora tão forte corria o risco de explicar tudo num parágrafo, fazendo da narrativa uma simples caricatura moral. Mas não é isso que acontece, entre outras razões porque as duas personagens principais — Daniel e Cecília — vão desempenhando à vez tanto o papel do safio como o do lavagante. Daniel Lobo, médico ligado aos meios oposicionistas, enamora-se de Cecília, uma estudante de Arquitectura que gosta de Miles Davis, prefere Bergman a Visconti e dá a medo os primeiros passos no sentido de “devenir femme” (à francesa, imitando Simone de Beauvoir). Ele é lavagante quando a tenta moldar aos seus desígnios, levado pela “velha costela de Pigmaleão que todos nós temos”; ela quando acaba por o trair, ao sentir-se à margem “dum universo comprometido numa luta de vida ou de morte” (as manifestações proibidas do 1.º de Maio). Ambos são o safio quando se deixam aprisionar pelas circunstâncias — ele de forma literal, ao ser apanhado ingenuamente numa rusga da PIDE; ela ao deitar tudo a perder, numa sequência de ignomínia e arrependimento digna de um “fado lamechas”.
Quem conta a história deste amor falhado é um amigo de Daniel, que começa por descobrir a verdade acerca de Cecília, a rapariga de “fria altivez” e rosto “soberano”, enquanto bebe vinho num bar da praia com um jornalista da geração de 45 (atormentado por a Censura lhe ter feito a mão “medrosa”). Nessa altura, Daniel ainda está preso e o narrador vê-a com um fascista, «carrasco de negra crónica», a quem ela acabou por ceder após longo cerco. Num segundo momento da narrativa, já com o amigo em liberdade e a par de tudo, é num cenário igualmente imóvel (e não menos etílico), sob um alpendre, que ele escuta durante uma noite inteira a evocação que Daniel faz de um “tempo vencido”, sabendo à partida como tudo acabará.
Embora sem o fôlego e o acabamento literário dos melhores livros de Cardoso Pires, este é um belo texto e o retrato lúcido do que era Portugal no início dos anos 60: um país asfixiante, à mercê das “garras afiadas” do medo que tudo devora. Ou, como se diz a certa altura, um país “em plena Idade Média, com astronautas a voar por cima”.

Avaliação: 8/10

[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

2 Responses to “Lavagante excelentíssimo”

  1. domelhor.net on Março 5th, 2008 16:30

    Crtica a livro indito de Jos Cardoso Pires…

    Um bom texto sobre ‘Lavagante’, uma novela de Cardoso Pires que Nelson de Matos acaba de editar…

  2. Bibliotecário de Babel – Entre Neptuno e Nzambi on Maio 27th, 2008 14:41

    […] do êxito conseguido com Lavagante, novela inédita de José Cardoso Pires que já vai na quarta edição, Nelson de Matos escolheu […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges