Lavar a loiça

De todas as tarefas domésticas, lavar a loiça sempre foi a minha preferida. Gosto daqueles minutos passados com as mãos enfiadas na água quente e na espuma, da mecânica de gestos que não me obrigam a pensar e por isso me deixam a cabeça livre para devaneios, pontos da situação e ímpetos criativos. Em festas de amigos e nas férias colectivas, sempre me ofereci para a função de que toda a gente foge e muitas vezes fui olhado de lado, como se lavar a loiça fosse um prazer perverso que não é suposto ser exibido, despudoradamente, no final de um belo jantar.
Imaginem pois a minha alegria, e o meu alívio, ao deparar com esta passagem do conto É grave, doutor?, de Juan José Millás, incluído no volume Os Objectos Chamam-nos (Planeta):

«Quando eu era jovem, partilhei um apartamento com uma rapariga que a primeira coisa que me disse foi que odiava lavar loiça, de maneira que teria de ser eu a fazê-lo. Ao princípio parecia-me uma chatice, porque me empenhava em acabar quanto antes, creio, mas depois fui começando a gostar e lavava numa hora o mesmo número de pratos que qualquer pessoa normal teria lavado em meia hora. Aquilo de que eu gostava naquela actividade era que me punha intelectualmente activo. Dez minutos depois de estar a puxar o brilho a um tacho de alumínio, os neurónios travavam amizade entre si e resolvia problemas que na mesa de trabalho me teriam levado dias. Lavar a loiça ajudava-me a entrar num estranho estado de concentração do qual obtinha benefícios incríveis. No entanto, caía mal à minha companheira ver-me desfrutar dessa maneira e começou a pensar que partilhava a casa com um depravado.
– Mas por que razão não protestas quando tens de lavar a loiça?
– Porque gosto.
– Deixa-te de brincadeiras. Como é que podes gostar?
– É verdade. A água a correr e ver como desaparece pelo ralo a sujidade das frigideiras mergulha-me numa espécie de êxtase que me ajuda a reflectir sobre a existência.
Ao princípio ela pensou que eu estava a troçar dela, e depois que era um pervertido. Quando tínhamos convidados e me via a levantar depois de comer, para arrumar a cozinha, ouvia-a murmurar coisas sobre mim. Uma vez trouxe a mãe, a qual, depois de me observar de cima a baixo, me perguntou se eu era o tal que gostava de lavar a loiça.
– Sou um deles – respondi, sentindo-me membro de uma seita secreta de lavadores espalhados pelo mundo.»

Uma seita a que pelos vistos eu também pertenço, agora com uma pontinha de orgulho.



Comentários

12 Responses to “Lavar a loiça”

  1. nd on Fevereiro 23rd, 2010 0:15

    A par de cozinhar, também gosto de lavar a louça, embora nunca tenha brincado com bonecas (isto é para alguns), e só agora é que me pus a pensar porquê, e chego à conclusão de que é por ser repousante. Interessante post.

  2. Animal on Fevereiro 23rd, 2010 1:37

    agora, põe-te a pau: a seguir é a máquina da roupa e a tábua de passar a ferro…

  3. João on Fevereiro 23rd, 2010 1:47

    E somos 3!

  4. Helena on Fevereiro 23rd, 2010 2:14

    Eu também!!!! E agradeço-te muito este post Vou mostrá-lo a toda a gente, que não entende porque uma pessoa, para quem tarefas domésticas são como sopa para Mafalda, possa gostar de lavar loiça.Adorei. Mas acho que não vão ser muitos os que te compreendem, tal como não compreendo quem diz que passar a ferro é relaxante. Mas oh deuses!!! é tãooo diffferrrente!!!!

  5. Luís Graça on Fevereiro 23rd, 2010 3:56

    Também não desgosto. E também sou lento.

  6. Venâncio on Fevereiro 23rd, 2010 6:21

    Bate certo, ZM. Algumas charlas de imprensa saíram-me assim feitas, enquanto se desenrolava essa útil (sim, ainda por cima, útil) actividade.

  7. C on Fevereiro 23rd, 2010 9:06

    LOIÇA, AMOR, SEXO, 18 ANOS.

    Precoce, havia em mim dois imperativos: SER MÃE e ensinar o marido a lavar a loiça. Sentava os meus 18 anos no banco que me possibilitava uma visão semi lateral da bancada da cozinha e espreitava-o no seu avental, que lhe atara na parte de trás com uma laçada firme, e lhe conferia uma sensualidade única na estrutura doméstica. Pousadas que estavam as mãos no ventre dilatado onde crescia a minha primeira coisa preciosa olhava-o e dizia-lhe “querido, vou já fazer-te outro filho”; e ele, feminino, embevecia esfregando ainda melhor os pratos.
    Depois lia-lhe o jornal.
    Saía, mais tarde, para o trabalho e o ele amorosamente “pequenina, não chegues tarde e vê lá com quem te metes”.
    Trabalhava rápido para vir apalpá-lo e sujar mais pratos.
    A ti Luis, na memória.
    Carmo

  8. filipa on Fevereiro 23rd, 2010 12:19

    é bem, zé mário!

  9. juwalter martins on Fevereiro 23rd, 2010 13:23

    todos livros de historia

  10. Mak on Fevereiro 23rd, 2010 14:51

    Tenho um amigo meu que torna ainda mais ritualístico esse acto de lavar a loiça, acompanhando-o de um copo de whisky e, diz ele, um pacote de bolachas com pepitas de chocolate.

    Não sei o que isso fará pela qualidade da limpeza, mas vê-se que tem gosto naquilo que faz…

  11. Gerana Damulakis on Fevereiro 23rd, 2010 15:14

    Ando fascinada pela literatura de Juan José Millás: O mundo, Laura e Julio. De tirar o chapéu.

  12. Miguel Gouveia on Fevereiro 23rd, 2010 16:54

    O melhor momento para planear um livro é enquanto se lava a loiça.
    Agatha Christie
    http://bruaa-editora.blogspot.com/2009/07/vende-se-maquina-de-lavar-loica.html

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges