Lembrar o Olímpio
É logo à noite, pelas 22h00, na Cooperativa Padaria do Povo (Rua Luís Derouet, 20, 1º, Campo de Ourique, Lisboa). Um grupo de amigos do Olímpio Ferreira vai evocá-lo com textos, versos e outras formas de memória. Será igualmente posto a circular um pequeno livro de homenagem, para o qual contribuí com este poema:
O. F.
Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que já foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.
Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.
Apareçam e dêem um abraço à Mariana por mim, que hoje estou demasiado longe (mas não me esqueço).
Comentários
7 Responses to “Lembrar o Olímpio”
- Melancólicas criaturas em 20 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 20 de Maio de 2012
- Um rato através da anaconda em 20 de Maio de 2012
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
- O que aí vem (Esfera do Caos) em 19 de Maio de 2012
- Camané no ‘Avenida de Poemas’ em 18 de Maio de 2012
- Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’ em 18 de Maio de 2012
- Juan Marsé: “Ao romancista não basta a realidade, ele tem de ir sempre um pouco mais além” em 18 de Maio de 2012
- Cinco poemas de Liberto Cruz em 17 de Maio de 2012
- A pirâmide alimentar dos escritores em 17 de Maio de 2012


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“Olhar a ausência” com palavras, acima de tudo sendo “só palavras, nem coisas maiores/ nem mais altas, apenas pedras que lançamos”. Bonita homenagem de um poeta para um amigo. Inspiradora ausência.
Não conheci Olímpio Ferreira, mas acredito que tenha sido um bom homem, com muito valor: é aquilo que vou colhendo no que dizem aqueles que o conheceram.
Quanto ao teu poema, está excelente, logo a começar nos 2 primeiros versos: «Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,/
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.» e estes também «Descemos à rua, bebemos/ café, fingimos seguir em frente.»
Um abraço
Não falta um acento em “contribui”?
(não é para chatear. A pergunta é mesmo legítima)
Falta, Joäo, claro que falta. Pressas.
está muito bom o poema. É do Olímpio Ferreira ou seu, José Mário Silva?
O daniel oliveira também escreveu um belíssimo texto, dos melhores posts que por aí andam (http://arrastao.org/obituario/aquele-sorriso/)
É meu, Ente. O texto do Daniel também faz parte do livro de homenagem.
Bonito. Gostei.