Ler J. S.

Ontem à tarde, na Sala Almada Negreiros do CCB, diante de umas 150 pessoas, lemos excertos de alguns livros de José Saramago. O anfitrião, António Mega Ferreira, começou por lembrar o Saramago poeta, recuperando três dos Poemas Possíveis (de 1966). Depois, Violante Saramago Matos leu uma passagem brutal do Ensaio Sobre a Cegueira (1995) e João Céu e Silva partilhou algumas cenas soltas do Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Seguiu-se uma conversa de Mega Ferreira com Zeferino Coelho, sobre as relações entre escritor e editor, após a qual foi a minha vez de ajeitar o microfone e aclarar a voz.
Comecei pelo poema que abre o livro Provavelmente Alegria (1970):

POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta.
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas a grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

Depois li um excerto de seis páginas de Memorial do Convento (1982), aquela sequência em que se descreve magistralmente o estranho poder de Blimunda (o de ver por dentro dos corpos e da terra). Começa na página 75 (tenho a 15.ª edição, de 1985), com este parágrafo:

«Dorme Baltasar no lado direito da enxerga, desde a primeira noite aí dorme, porque é desse lado o seu braço inteiro, e ao voltar-se para Blimunda pode, com ele, cingi-la contra si, correr-lhe os dedos desde a nuca até à cintura, e mais abaixo ainda se os sentidos de um e do outro despertaram no calor do sono e na representação do sonho, ou já acordadíssimos iam quando se deitaram, que este casal, ilegítimo por sua própria vontade, não sacramentado na igreja, cuida pouco de regras e respeitos, e se a ele apeteceu, a ela apetecerá, e se ela quis, quererá ele. Talvez ande por aqui obra de outro mais secreto sacramento, a cruz e o sinal feitos e traçados com o sangue da virgindade rasgada, quando, à luz amarela do candil, estando ambos deitados de costas, repousando, e, por primeira infracção aos usos, nus como suas mães os tinham parido, Blimunda recolheu da enxerga, entre as pernas, o vivíssimo sangue, e nessa espécie comungaram, se não é heresia dizê-lo ou, mais ainda, tê-lo feito. Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro, ouve-se cair a chuva no telhado, há grandes ventos sobre o rio e a barra, e, apesar de tão próxima a madrugada, parece escura noite. Outro se enganaria, mas não Baltasar, que sempre acorda à mesma hora, muito antes de nascer o sol, hábito inquieto de soldado, e fica alerta a ver retirar-se devagar a escuridão de cima das coisas e das pessoas, a sentir aquele grande alívio que levanta o peito e é o suspiro do dia, o primeiro e impreciso traço grisalho das frinchas, até que um leve rumor acorda Blimunda e outro som começa e se prolonga, infalível, é Blimunda a comer o seu pão, e depois que o comeu abre os olhos, vira-se para Baltasar e descansa a cabeça sobre o ombro dele, ao mesmo tempo que pousa a mão esquerda no lugar da mão ausente, braço sobre braço, pulso sobre pulso, é a vida, quanto pode, emendando a morte. Mas hoje não será assim. Um dia e outro dia perguntou Baltasar a Blimunda por que comia todas as manhãs antes de abrir os olhos, perguntou ao padre Bartolomeu Lourenço que segredo era este, ela respondeu-lhe uma vez que se acostumara a isso em criança, ele disse que se tratava de um grande mistério, tão grande que voar faria figura de pequena coisa, comparando. Hoje se saberá.»

E termina na página 81, com estas palavras:

«(…) pela salvação da tua alma te peço, Baltasar, leva-me para casa, dá-me de comer, e deita-te comigo, porque aqui adiante de ti não te posso ver, e eu não te quero ver por dentro, só quero olhar para ti, cara escura e barbada, olhos cansados, boca que é tão triste, mesmo quando estás ao meu lado deitado e me queres, leva-me para casa, que eu irei atrás de ti, mas com os olhos baixos, porque uma vez jurei que nunca te veria por dentro, e assim será, castigada seja eu se alguma vez o fizer.»

Li ainda a versão curta desta crónica.
O momento mais alto da sessão, porém, foi a leitura que Pedro Lamares apresentou de O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Seleccionando apenas algumas situações e personagens, cosendo-as muito bem e cerzindo tudo com a voz, como disse Mega Ferreira, Lamares conseguiu resumir o essencial do melhor romance de Saramago em 45 minutos. E disse-o com a arte, o ritmo e a precisão vocal de um excelente actor. Só para ouvir isto, valeu a pena organizar esta homenagem ao nosso Nobel da Literatura.



Comentários

2 Responses to “Ler J. S.”

  1. Rafaela on Setembro 27th, 2010 13:04

    Sem dúvida que a leitura por parte do Pedro Lamares foi um momento único, que nos envolveu e nos levou a viajar pela história maravilhosa de Saramago. Mas foi a sua crónica sobre as duas mulheres que me fizeram estremecer da cabeça aos pés. Parabéns e continuação do excelente trabalho que tem vindo a fazer.

    Um abraço,

    Rafaela

  2. rui santos on Setembro 27th, 2010 17:56

    … maravilhoso o texto lido sobre as «duas mulheres»… são mulheres que fazem parte do meu imaginário… já tinha lido o texto na Ler… mas ouvi-lo teve outra dimensão…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges