Literatura infantil em Portugal: boom ou bang?

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Auto-retrato de Catarina Sobral (clique para aumentar)

Depois de um primeiro livro, Greve (2011), sobre pontos – ortográficos, verdes, de fuga, de encontro, etc. – que se recusam a fazer o que deles se espera, e de um segundo que funciona como um elegante «travelling urbano» (Achimpa, 2012), Catarina Sobral lançou, já este ano, O Meu Avô, uma história de duas pessoas que se cruzam no dia-a-dia, cada uma no seu tempo. Foi com as ilustrações desta obra que a autora, nascida em 1985, participou na exposição da Feira do Livro Infantil de Bolonha, no final de Março. Entre 41 candidatos de todo o mundo, a organização da Feira decidiu atribuir-lhe o prémio internacional de ilustração para jovens com menos de 35 anos, no valor de 21 mil euros, um reconhecimento que colocou a literatura infantil portuguesa sob os focos da atenção mediática.
Para Catarina Sobral, os efeitos do prémio já se fazem sentir: «A venda de direitos vai levar um empurrão. Há mais editoras estrangeiras atentas ao meu nome. E acho que isto me pode abrir portas lá fora.» Carla Oliveira, responsável pela Orfeu Mini, editora dos três livros, corrobora com entusiasmo, orgulhando-se da aposta feita. «Pela primeira vez, apercebemo-nos de uma relação de causa-efeito, porque as vendas de O Meu Avô nas livrarias aumentaram efectivamente na semana que se seguiu à atribuição do prémio.» Já vendido para França, Brasil, Suécia e Itália, o livro começa também a ser procurado por muitos editores estrangeiros que até aqui não tinham manifestado interesse, «talvez por desconhecimento».
Ana Castro, da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, vê neste sucesso mais uma etapa de um processo de internacionalização que teve início em 2005, com a criação de um programa anual de apoio à edição de ilustradores portugueses no estrangeiro. «Os resultados têm sido muito melhores do que nós esperávamos. De início, as editoras ficavam expostas no nosso pavilhão, em Bolonha. Hoje, a Planeta Tangerina já tem um espaço próprio. E há uma espécie de moda em torno da ilustração portuguesa. É um boom de oferta e sobretudo de qualidade. Um boom que se alimenta de si mesmo, com o êxito de uns a abrir caminho para os outros.»
Em 2013, a Planeta Tangerina também saiu de Bolonha com razões para sorrir, ao receber o prémio de melhor editora europeia do ano no segmento infantil. De então para cá, Isabel Minhós Martins, fundadora do projecto, assinala que o volume de negócios cresceu ligeiramente, muito à custa das vendas de direitos para o estrangeiro, que subiram 50% depois da atribuição do prémio, passando a incluir mercados asiáticos (China, Taiwan e Coreia do Sul). De resto, a venda de direitos para o estrangeiro já representa 40% do total da facturação. A expansão internacional deve-se sobretudo «ao salto qualitativo gigante revelado pelos ilustradores portugueses», nem sempre acompanhado pela escrita. «É mais difícil encontrar bons textos. Temos excelentes escritores, mas nem todos escrevem para a infância/juventude. Não é uma coisa que se decida por decreto.»
Apesar do êxito internacional, a Planeta Tangerina continua a publicar poucos livros (sete por ano) e as vendas em livraria não cresceram. O mesmo se passou com a Orfeu Mini. «Os dois últimos anos foram de contenção. Entre novidades e reedições, publicámos uma média de cinco álbuns ilustrados por ano.» Sediada na Figueira da Foz, a Bruaá regista uma actividade ainda mais restrita: três livros por ano. Miguel Gouveia, um dos dois sócios da editora, tem uma noção muito concreta do modo como a crise económica afecta o consumo dos livros: «Nem de propósito, estou neste momento a desempacotar uma devolução enorme feita pela FNAC. A realidade é esta que tenho aqui à minha volta e não permite grandes expectativas para o futuro próximo.» Se a estrutura leve das pequenas editoras lhes permite, apesar de tudo, manter o ritmo de publicação, o mesmo não se pode dizer das grandes editoras, que reduziram de forma significativa o lançamento de novidades. «Curiosamente, a esse decréscimo da oferta correspondeu um aumento de qualidade», defende Miguel Gouveia. «Passaram a publicar menos mas melhor, também porque o público, em parte devido ao bom trabalho das pequenas editoras, se tornou mais exigente.»
Ao boom de qualidade da literatura infantil portuguesa corresponde um boom comercial ou um bang? É difícil responder porque faltam, para este segmento, estatísticas e dados concretos, aliás como para o mercado livreiro no seu todo. Contactadas pelo EXPRESSO, as várias entidades que poderiam eventualmente fornecer números – da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) às empresas responsáveis pelos tops semanais, e às principais redes livreiras – ou recusaram a informação, ou ignoraram os pedidos, ou foram omissas. A rede de livrarias Bertrand, por exemplo, assume que «os livros infantis têm vindo a ganhar importância e peso nas nossas vendas, sendo hoje a nossa segunda maior temática», um «crescimento sustentado», fruto de uma «oferta maior e mais diversificada» que nasce também de «programas de promoção da leitura como o Plano Nacional de Leitura, entre outros». Sem números concretos, porém, não é possível avaliar a natureza e dimensão do referido «crescimento sustentado». Da mesma forma, o grupo Porto Editora garante apostar em «títulos de grandes autores portugueses, cujas obras são obrigatórias e/ou recomendadas nas escolas, com especial atenção para as crianças entre os seis e os nove anos, acompanhando assim o período fundamental de iniciação à escrita e criação de hábitos de leitura». Desde 2012, quando Sophia de Mello Breyner foi integrada no catálogo, a Porto Editora lançou livros de Luísa Ducla Soares, Manuel António Pina e Eugénio de Andrade. E quanto a vendas? A resposta de sempre: «Estamos a registar um crescimento muito interessante neste segmento, que, contudo, não podemos neste momento precisar.»
Especialista em literatura infantil, Ana Margarida Ramos, investigadora da Universidade de Aveiro, diz que esta área cultural vive um «momento muito interessante» e talvez irrepetível, na medida em que coexistem no tempo duas gerações muito diferentes. De um lado, autores com 30 ou 40 anos de carreira, como António Torrado, Luísa Ducla Soares, António Mota ou Alice Vieira; do outro, jovens que apostam em novas linguagens (Afonso Cruz, Isabel Minhós Martins, Carla Maia de Almeida, David Machado, entre outros), o que gera uma «imensa variedade de estilos e temáticas», com qualquer coisa de «caleidoscópico». O reconhecimento em festivais estrangeiros também é importante, mas Ana Margarida Ramos recusa euforias ou leituras demasiado positivas, porque «promover os ilustradores não chega» e é preciso «solidificar o trabalho que tem sido feito». Acabada de chegar de um congresso sobre literatura infantil em Atenas, garante que o conhecimento internacional em relação à produção portuguesa ainda é diminuto e «há muito por fazer».
Se as pequenas editoras conseguem manter o seu ritmo de edição, apesar da gravíssima crise económica, Isabel Minhós Martins vê nisso um sinal de resiliência. Logo, de esperança. «É preciso não esquecer o impacto do Plano Nacional de Leitura, mais o trabalho da Rede de Bibliotecas Escolares e da Rede de Bibliotecas Municipais, além do esforço imenso de alguns professores.» E das famílias, claro. »Elas continuam, apesar das imensas dificuldades, a valorizar muito o livro para a infância e a dar muita importância ao facto de as crianças lerem. Talvez por isso, mesmo as que se encontram em apuros continuem a esforçar-se para comprar alguns livros para os filhos.» Carla Oliveira acrescenta ainda, nas iniciativas que podem valorizar a ilustração infantil, exposições que ponham o grande público em contacto com o trabalho dos artistas, como a Ilustrarte (bienal que decorre na Central Tejo) ou a exposição “Como as Cerejas”, que esteve patente no CCB.

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Ilustração de Catarina Sobral para a capa do suplemento Actual (clique para aumentar)

Formada em Design, Catarina Sobral, que lançará uma nova obra durante a Feira do Livro (desta vez com chancela da Pato Lógico), sentiu-se atraída pela liberdade formal que a criação de livros infantis lhe permite. Em Greve, com o seu ambiente alusivo a lutas políticas e sindicais, explorou uma linguagem visual que remete para o construtivismo russo (colagens e sobreposição de fotografia com desenho), «uma coisa muito século XX». Já em O Meu Avô abundam as referências cinematográficas e literárias, algumas só acessíveis aos pais das crianças a que supostamente se dirigem. Supostamente, porque Isabel Minhós Martins garante que «são muitos os adultos que compram os livros da Planeta Tangerina (e outros do género) para consumo próprio».
Debruçada sobre o estirador, como se representou no auto-retrato, Catarina Sobral acredita que há de facto um boom da literatura infantil portuguesa, pelo menos em termos de qualidade artística. E promete continuar o seu caminho, tranquilamente, passo a passo. Controlando se possível, como acontece na Orfeu Mini, todas as fases do processo criativo, da planificação das páginas à escolha do papel e à verificação das cores na gráfica. «O livro de imagens não existe antes de se transformar num objecto físico. Um pdf ainda não é nada. Não se pode tocar. São os aspectos técnicos que determinam o que o livro será.» E é por isso que Catarina gosta de acompanhar tudo, até ao acabamento final. «Estou lá, quando as primeiras folhas impressas começam a sair da máquina.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges