Livraria Trama
A mais ou menos 500 metros contados em linha recta, fica a Byblos, com os seus milhares de volumes com RFID (sensores de radiofrequência), mais os ecrãs tácteis, os plasmas, as pilhas de bestsellers, as escadas rolantes, a estante robotizada made in Italy e dezenas de funcionários. A única coisa que a Trama, junto ao Rato, e a Byblos, nas Amoreiras, têm em comum é o facto de venderem livros e ocuparem dois pisos. Tudo o resto as separa, a começar no conceito e a terminar nas respectivas áreas: 140 metros quadrados versus 3300.
Sentada numa das cadeiras do andar de cima, junto ao janelão que enche de luz a parte nobre da Trama (o rés-do-chão fica para as novidades, os jornais e a caixa), Catarina Barros, 23 anos, encolhe os ombros e diz que a sombra do gigante não a incomoda: “Eles são um monstro, nós somos uma livraria de bairro.” A seu lado, Ricardo Ribeiro, 28 anos, sócio de Catarina nesta aventura, faz que sim com a cabeça: “Trabalhamos para públicos diferentes, o sucesso deles não nos afecta.”
Os dois amigos conheceram-se atrás do balcão da livraria Clepsidra, em Massamá, onde começaram a alimentar o sonho de qualquer livreiro: ter o seu próprio espaço e a liberdade de “seleccionar o que sugerimos aos clientes”.
Após um frustrante estágio numa empresa farmacêutica, Catarina, que deixou o curso de Literatura Portuguesa a meio e andava à procura de um rumo, foi beber um café com o antigo colega. “Gostava de abrir uma livraria”, disse-lhe em tom de desafio. E Ricardo aceitou o repto, ou não tivesse há uns tempos a mesma ideia na cabeça.
Aconteceu isto há seis meses e o objectivo da dupla era abrir a Trama — “um nome com muitos significados diferentes e que soa bem” — lá para Outubro de 2008. Só que certas coisas, quando se põem em marcha, ninguém as pára. Depois de umas semanas “a comprar o Ocasião às quintas”, descobriram o sítio ideal e criaram “tudo de raiz”, da organização do espaço ao desenho, construção e montagem dos móveis (o pai de Ricardo tem uma marcenaria). Resultado: a 30 de Novembro de 2007, quase um ano antes do previsto, a Trama abriu as portas.
“Isto é para clientes parecidos connosco”, diz Catarina. Leitores amantes de raridades e edições esgotadas, que discutem os livros “e puxam por nós”. Bibliófilos que choram ao encontrar uma primeira edição de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Livros do Brasil), ou que obrigam os livreiros a um verdadeiro trabalho de book hunting. “Por exemplo, houve um cliente que apareceu aqui à procura de um livro sobre a arqueologia dos bunkers, porque não o encontrava em lado nenhum, e eu vou tentar descobrir-lhe um exemplar”, diz Ricardo.
Apesar de inaugurada há pouco mais de um mês, a Trama já tem os seus fiéis. “Há caras que se repetem nos concertos de quinta à noite”, garante Catarina. E o mesmo deverá acontecer nos futuros leilões mensais de livros, com primeiras edições de Herberto Helder, Ramos Rosa e outros, prevê Ricardo.
O alfarrábio e os fundos de catálogo prometem ser, de resto, um dos principais atractivos desta livraria que tem um canto (foto acima) só com volumes de páginas amarelecidas e grafismo dos anos 70, muita coisa dos beatnicks e plaquetes de poetas hoje famosos, editadas no tempo em que eram apenas obscuros.
Aos dois fundadores juntou-se um terceiro elemento, a Joana, depois de um processo épico de candidaturas e entrevistas de emprego (amplamente documentado no blogue), durante o qual Catarina desempenhou o mais ingrato dos papéis: o de recusar pessoas que demonstravam enorme vontade e excelentes currículos. “Uma delas, que ficou tristíssima por não ter sido escolhida, ofereceu-se ainda assim para nos ajudar a arrumar as coisas no dia da abertura.”
Para Ricardo, a Trama é muito mais do que o lugar onde trabalha 10 a 12 horas por dia. “É a nossa casa, um sítio onde fazemos aquilo de que mais gostamos e recebemos os amigos.” Para Catarina, “mãe babada”, à livraria só falta uma coisa: a pátina que vem com o tempo. “Espero um dia ver as paredes cheias de cartazes e memórias do que se for fazendo aqui.”
Joana, Ricardo e Catarina
Além dos concertos de quinta, haverá performances, dança e conversas com autores nas noites de sexta e actividades destinadas ao público infantil nas tardes de sábado. Tudo no piso de cima, junto a um pequeno bar que serve os vários tipos de café Nespresso, mas com outros nomes: “A cápsula amarela vai chamar-se Calvino, o lote mais forte será o Nietzsche, ao Roma vamos chamar-lhe Pascal Quignard e aos descafeinados…, bom, aos descafeinados é melhor não dizer o que lhes vamos chamar, para não ferir susceptibilidades.”
A Trama fica na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Está aberta segundas, terças, quartas e sábados, das 10h00 às 19h30; quintas e sextas, das 10h00 à meia-noite. Programação de Janeiro aqui.
[Versão ampliada de um texto publicado no último número da revista Time Out]
Comentários
11 Responses to “Livraria Trama”
- Série Lydia Davis (6) em 9 de Fevereiro de 2010
- O basquetebolista que lê Bolaño em 9 de Fevereiro de 2010
- O que aí vem (Gradiva) em 8 de Fevereiro de 2010
- Manuela, telegráfica em 8 de Fevereiro de 2010
- Candidatura ao prémio BOBs 2009-2010 em 8 de Fevereiro de 2010
- As canções de Salinger em 8 de Fevereiro de 2010
- Fast reading em 8 de Fevereiro de 2010
- Fotos antigas de escritores portugueses em 8 de Fevereiro de 2010
- Trabalhos oficinais em 7 de Fevereiro de 2010
- Pedras da calçada tristalegre em 7 de Fevereiro de 2010


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Que bela notícia esta! Quando estiver por Lisboa haverá pois uma razão para estar perto da Byblos. Dispenso o chão alcatifado e as maravilhas high tech da gigante livreira, e ficar-me-ei pela luz natural, os livros e o café da Trama. Um lugar que augura bons encontros. Cheers ao trio ousado!
Mudando de assunto: com quantias faraónicas a correr pelo mercado livreiro português, como é que ainda ninguém decidiu que é tempo de termos uma edição de clássicos portugueses em papel decente, capa dura, sóbria e não pirosa, como todas as outras literaturas têm?
Parabéns pelo blogue, que leio quotidianamente nesta fria cidade lunar. Um dia espero poder enviar-lhe fotos da Seminary Co-op, a livraria-bunker que é a melhor livraria académica dos EUA.
[...] Livros – Livraria Trama [...]
O espaço é muito interessante, Zé Mário, às tantas ainda hoje dou lá um salto de tarde para ver melhor.
lá irei, lá irei.
Obrigado pelo post, é uma grande honra aparecer por aqui. A TRAMA.
Um espaço verdadeiramente encantador! Parabéns ao trio, e Catarina, um parabéns reforçado!
Boa! Parabéns! Alfarrábios? Fundos de catálogo? Café Nespresso (com outros nomes)? Uau! Vou ser cliente! Parabéns pela coragem da iniciativa e desejo-lhes muitos anos de vendas, book-hunting e outras coisas mais…
[...] um ou mais livros que aprecie e tenham um preço razoável não traga para casa. Pelas fotos que vi aqui e pela informação também, a Trama parece ser uma dessas livrarias onde seria capaz de passar [...]
ola meu nome é camila q estou abrindo uma livraria e gostaria de saber como faço pra ser uma distribuidora sua
Gostei do comentário do Ricardo sobre a Byblos… Mas o sucesso não se mede aos palmos!
E (infelizmente) a Byblos não se aguentou em tal esforço megalomano e a pequena Trama (felizmente) já vai quase com ano e meio de vida! Parabéns Catarina e Ricardo: gosto muito da vossa livraria!