Lógica binária

Os autores que se deslocam à Feira do Livro para dar autógrafos já sabem o que os espera. As grandes estrelas (António Lobo Antunes, por exemplo) arriscam uma tendinite e a visão de uma fila de leitores expectantes que se encaracola e chega a parecer infinita. As estrelas medianas, ou que ficam uns furos mais abaixo na escala da notoriedade, têm tempo para conversar com os editores e beber tranquilamente as suas garrafinhas de água, enquanto assinam, a cada cinco ou dez minutos, um exemplar do seu último romance. Depois, cá mais para baixo, há os autores normais (e por isso sem grandes expectativas): se autografarem uns três ou quatro livritos, já não é nada mau. Na base da pirâmide, previsivelmente, ficam os autores pouco conhecidos e os poetas. Esses vão para a Feira como quem vai para a esplanada. A probabilidade de alguém os interpelar é mínima, mas sempre se põe a conversa em dia. A lógica que rege as suas sessões é binária: ora assinam um livro, ou nenhum; um ou zero, um ou zero. Esta tarde, assinei um livro. Ou seja, o que seria uma derrota absurda para Lobo Antunes (ou inesperada, para a maioria dos que ficam abaixo dele na pirâmide), para mim foi um triunfo (a alegria de escapar ao zero absoluto).



Comentários

9 Responses to “Lógica binária”

  1. André Simões on Maio 17th, 2009 12:15

    Podes ver a coisa de outro ponto de vista: de certeza absoluta que quem te pediu o autógrafo te leu ou te lerá com dedicação; já tenho dúvidas de que uma parte significativa dos que serpenteavam ontem à roda da mesa do António Lobo Antunes tenha lido mais do que um ou dois da sua enorme e excelente produção, e estou seguro de que a maior parte guardou o autógrafo dele como mais um para a colecção. Eu, que lhe como e rumino lentamente os livros um a um, eu, que lhe venero a escrita quase como uma revelação divina, não tenho nenhum livro autografado por ele, nem me passou pela cabeça juntar-me à jibóia de muitas cabeças que ontem assombrava a Praça Leya de livro na mão à espera de um toque ou de um olhar do mestre. Muito mais apreço tenho ao autógrafo do escritor, do poeta com quem troquei ou espero vir a trocar palavras e ideias. Por isso prezo muito os livros que tenho autografados por ti, ou pelo Gonçalo M. Tavares, ou pelo valter hugo mãe, ou pelo Luís Filipe Cristóvão, ou pela Golgona Angel, ou pelo Pedro Braga Falcão, ou pelo Rui Almeida, ou pelo Paulo Rodrigues Ferreira. Sei quais são e posso apontá-los na estante. Mas não sei já quais os livros com autógrafos anónimos deixados pelo Saramago em outras feiras.

  2. António on Maio 18th, 2009 10:24

    Bem tive vontade de me sentar à sua mesa e entabular dois dedos de conversa consigo e com o Pedro. Mas as hostes literatas da “Praça” Leya – essas filas estranguladoras que serpenteavam em busca de um autógrafo do Psiquiatra – fizeram-me temer pela minha integridade física.

    Para a próxima pago-lhe uma imperial numa esplanada mais acima.

  3. Manuel Halpern on Maio 18th, 2009 12:28

    Há uns anos estava na Feira do Livro com um autor muito mais conhecido do que eu. Passámos um bom tempo à conversa sem assinar nada. Até que apareceu uma senhora que nos perguntou: «Por acaso não vendem cerveja?»
    Para a próxima levo umas cervejinhas… Sempre faço negócio…

  4. Manuel Halpern on Maio 18th, 2009 12:28

    Há uns anos estava na Feira do Livro com um autor muito mais conhecido do que eu. Passámos um bom tempo à conversa sem assinar nada. Até que apareceu uma senhora que nos perguntou: «Por acaso não vendem cerveja?»
    Para a próxima levo umas cervejinhas… Sempre faço negócio…

    http://finalcut-visao.blogspot.com/
    http://www.bloguedeletras.blogspot.com/

  5. Carla on Maio 18th, 2009 16:40

    Boa tarde.
    Sou leitora atenta do seu blogue, que muito aprecio.
    Bem haja pelo sentido de humor!
    Quando vier à feira do livro do Porto, farei questão de pedir-lhe um autógrafo.
    Cumprimentos

  6. C on Maio 18th, 2009 18:36

    António Lobo Antunes tem uma carreira já longa e a projecção que sabemos, independentemente da exigência e morosidade de percepção de alguns conteúdos, merece essa longa fila. José Mário Silva caminha para lá um pouco todos os dias. Tenho dois livros seus e dois do Pedro Mexia sem autógrafo, tal como do Lobo Antunes e tantos. Melhor, só tenho assinaturas de cinco que nomeio, neste blogue de livros, Inês Pedrosa, Saramago, Francisco José Viegas, Mia Couto, Daniel Sampaio. Interessa é comprar os livros.

  7. Pedro Teais da Ega on Maio 18th, 2009 22:08

    Subscrevo inteiramente o primeiro comentário.

    Vale mais uma conversa com cinco ou seis leitores durante 10 minutos do que o assinar frenético de livros, sem sequer cruzar olhares com quem os estende.

    Sábado tentarei passar pela Pó dos Livros, para a conversa sobre micro-ficção

    Um abraço

  8. filomena cabral on Maio 29th, 2009 16:10

    David Mourão-Ferreira, em troca de impressões depois de ter apresentado um livro meu (Amatus), no Clube de Jornalistas, em Lisboa, lembrou:”Olhe,Filomena, o mais importante é termos leitores: leitores e público raramente coincidem.(Actualmente, teria sido mais incisivo, por certo).

    Todos recordamos David Mourão-Ferreira , Poeta ímpar e cavalheiro.Lembro-me, de quando em vez ,da sábia consideração.

    Recordar faz bem.

  9. Continuidade dos parques | Bibliotecário de Babel on Julho 30th, 2009 16:16

    […] (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. Estou sentado numa cadeira de plástico cor-de-laranja, diante de uma mesa de plástico cor-de-laran…. Na mesa, duas pilhas de livros de capa preta. Tenho a esferográfica a postos, à espera dos meus […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges