Luis Sepúlveda: “A vida está cheia de literatura”

Depois de muitos anos na ASA, Luis Sepúlveda publicou o seu mais recente livro de contos (A Lâmpada de Aladino) na Porto Editora, acompanhando a mudança de agulha de Manuel Alberto Valente, seu amigo de sempre. A conversa que se segue, prevista para uma das esplanadas do Centro Comercial Vasco da Gama, acabou por acontecer durante uma sessão de autógrafos, por entre elogios dos fãs e dedicatórias manuscritas com rapidez profissional.

Na última década, tem publicado mais livros de crónicas e intervenção cívica do que propriamente de ficção. Como é que se deu este regresso à narrativa?
É verdade que eu publiquei várias obras em que reuni artigos, crónicas e ensaios, aquilo a que se chama livros de contingência, mas nunca me afastei da ficção. Mesmo durante os anos de aparente pousio, continuei sempre a escrever ficção. Acontece que este tipo de projecto necessita de muito tempo, de muito trabalho.

Não gosta de ser pressionado para publicar.
Não, não gosto. Aliás, nunca aceito pressões, seja de que tipo for. Limito-me a entregar os livros quando sinto que estão prontos.

E como é que sabe que estão prontos?
Sou muito crítico comigo mesmo, trabalho muito os textos. Se tiver alguma dúvida, não avanço. Os contos deste livro foram escritos em épocas diferentes e um dia apercebi-me que havia neles uma coerência que permitia juntá-los. Mas mesmo assim não publiquei todos. Elegi alguns, outros continuam na gaveta.

Algumas histórias têm como cenário a Patagónia mais remota, outras decorrem em Santiago do Chile (onde passou a juventude) ou em Hamburgo (um dos seus lugares de exílio). E há ainda um regresso ao coração da selva amazónica, aos cenários e às personagens de O Velho que Lia Romances de Amor. A ideia foi abranger de novo as muitas latitudes da sua vasta geografia pessoal?
Sim, claro. Mas sobretudo quis voltar a publicar ficção com um livro que fosse muito pessoal. Isto é, que permitisse aos meus leitores um reencontro com as atmosferas dos meus romances mais antigos e dos livros de viagens.

O título completo deste volume é A Lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento. Que tipo de memórias pretendeu convocar?
Muitas memórias diferentes. Memórias de amigos, de paisagens, de situações, de personagens que me marcaram. Em certo sentido, toda a minha literatura tem sido uma grande homenagem à memória, que é, ela própria, uma forma de ficção. Nunca conseguimos reproduzir as coisas exactamente como elas foram. Quando recordamos o que se passou ontem, já estamos a ficcionar.

Grande parte dos contos estão dedicados a amigos, alguns dos quais já desaparecidos. Em «Jantar com Poetas Mortos», escreve: «Os amigos não morrem simplesmente: morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.»
A perda de um amigo é sempre sentida como uma mutilação atroz, há algo muito importante de nós mesmos que desaparece com eles. Mas, ao mesmo tempo, trata-se de não permitir que o esquecimento nos vença. Como diz um personagem desse conto: «Enquanto falarmos deles e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem».

O amor é outra forma de melancolia. As mulheres amadas são sempre muito esquivas. Ora surgem como fantasmas; ora se escapam, fugidias; ora se assemelham à própria morte. Parecem impalpáveis, voláteis. É quase como se o amor fosse uma espécie de utopia que os protagonistas não conseguem fixar.
Esse padrão é uma coincidência. Eu acho que o amor, como muitas outras coisas, não é algo que nasça de repente. Precisa de tempo para amadurecer, como o vinho. Só assim pode ter cheiro, sabor, textura. E às vezes, realmente, como que se escapa das mãos e desaparece. Ou então, quando chega, afinal era outro o destinatário. E tudo isto tem que ver com o paradoxo da fortuna, que é o tema geral da maioria dos contos. A fortuna que nunca chega, ou chega demasiado tarde, ou quando chega traz-te mais problemas do que aqueles que tinhas antes. A fortuna que pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. No conto do Aladino, por exemplo, aparece uma índia para quem a fortuna era uma simples manta. Só isso. Quis contar esses outros rostos que pode ter a fortuna.

Costuma dizer que as suas histórias se inspiram em relatos que vai ouvindo, aqui e ali, nas deambulações pelo mundo. Aconteceu o mesmo com estas?
De facto, a maior parte das minhas histórias foram ouvidas a pessoas que conheci nos lugares mais díspares. Ou então nascem de situações em que fui testemunha ou participante. A vida está cheia de literatura. A nós, escritores, cabe-nos olhar com atenção e encontrar esses pequenos detalhes da existência que podem ser transformados em material literário, que podem ser narrados. Há escritores que se comportam na vida como um moinho de vento, sempre a girar, enquanto tentam agarrar as histórias. E depois há outros escritores que escrevem simplesmente porque sentem que têm de escrever, deixam que as histórias venham ter com eles, calmamente, sem urgências, sem problemas de tempo. Pode vir uma história hoje e outra amanhã. Ou uma hoje e a próxima dez anos depois. Pouco importa. Porque as histórias acabam sempre por chegar.

Outro tema recorrente no livro é a ideia de limite territorial. O Hotel Z, por exemplo, fica na povoação de Tres Fronteras, «lá onde, sem que ninguém se importe, se tocam as fronteiras ilusórias do Peru, Colômbia e Brasil». No conto «A reconstrução da catedral», assiste-se a uma guerra absurda entre o Peru e o Equador para garantir o domínio de áreas quase inexploradas da Amazónia. Já no caso da Patagónia, a fronteira é com o fim do mundo. As personagens parecem procurar um limiar geográfico, que é também o limiar entre a vida e a morte, o amor e o desaparecimento.
Eu creio que na vida estamos sempre a passar uma fronteira. Em todos os sentidos. Não há fronteira mais imprecisa do que a fronteira dos afectos, por exemplo. Os afectos têm de ser mantidos. Se passas para o lado de lá da fronteira, transformam-se em desafectos. A relação com a tua família, com os teus filhos, é outra fronteira. Sabes que virá um momento em que os teus filhos se tornarão adultos e estarão do outro lado, um momento em que vão definir as suas próprias fronteiras. Talvez por ter viajado muito pelo mundo, tenho realmente o sentimento de ser um cidadão de fronteira. Por outro lado, não creio que se possa existir de outro modo. Todos vivemos em lugares que são, de uma maneira ou de outra, fronteiriços. Todos somos habitantes de fronteiras.

Nestes contos há também muitos espelhos. Um deles, o mais interessante, reflecte apenas o lado bom das pessoas.
A mim, os espelhos intrigam-me muito. Causam-me sempre uma enorme curiosidade.

A Borges, davam-lhe pavor.
Sim. No meu caso, intrigam-me não no sentido Lewis Carroll, o de querer saber o que fica do outro lado do espelho, nada disso. Intrigam-me porque muitas vezes os espelhos melhoram a imagem do que reflectem. Deformam a realidade de uma forma benigna. São generosos. Há uma generosidade óptica nos espelhos que é muito misteriosa. E acho que foi isso que me levou a criar a bizarra personagem do libanês que fabrica espelhos. Quando ouvi falar dele, em Tres Fronteras, sabia que era uma invenção do tipo que me estava a contar a história. E disse, está bem, mas agora eu vou melhorar um pouco a tua história, acrescentar-lhe detalhes e transformá-la em literatura. O espelho que mostra o lado melhor das pessoas apela a uma certa carga utópica. Cabe à literatura dizer que era bom que existisse um espelho assim.

Nenhum destes textos é explicitamente político. Prefere guardar para os livros de crónicas um olhar mais empenhado sobre a realidade do mundo contemporâneo?
O ponto de vista político não está muito presente na minha literatura, naquilo que escrevo de puramente literário. Sou mais explícito nos artigos de opinião, nas crónicas, nos ensaios. Mas como a literatura depende do nosso estado de espírito, a realidade acaba sempre por afectar a forma como escrevemos. Ainda assim, procuro manter um equilíbrio entre essa posição ética que tenho perante a vida e a minha posição estética no campo da literatura. Nunca deixando de fazer pontes, através das quais tento dar à literatura a mesma carga ética que me norteia na vida e dar à vida a mesma carga estética com que escrevo os meus livros.

Como é que vê a situação em que nos encontramos agora, com o espectro da crise financeira a assustar toda a gente?
Estamos numa época particularmente crítica. Primeiro, porque os actuais dirigentes mundiais são de uma mediocridade absoluta. Todos, não se salva um. Não há ninguém com coragem suficiente para dizer que o que falhou foi o sistema, que o capitalismo colapsou. Quando eu e milhões de pessoas como eu dizíamos que não se pode deixar tudo nas mãos do mercado, que o mercado não tem ética, não tem moral, éramos quase apelidados de terroristas. Mas agora toda a gente acha que o Estado é necessário.

Há nisso uma certa ironia.
Sim, uma ironia trágica. Quando Evo Morales, num país tão pobre como a Bolívia, nacionalizou um banco, foi um escândalo. Quando Gordon Brown nacionaliza todos os bancos ingleses, é um génio, o salvador da Europa e do mundo.

O penúltimo conto tem como protagonista um pirata português, Valdemar do Alentejo. De onde é que surge esta figura? Inspirou-se numa história verdadeira?
Sim. Valdemar do Alentejo é uma personagem absolutamente real. E convém explicar que se trata de um verdadeiro pirata. Não confundir com corsários, flibusteiros ou bucaneiros. Os verdadeiros piratas, que eram homens livres no mar, foram muito poucos. Na verdade, só houve piratas em três lugares. No mar do Norte, por onde andou um pirata chamado Klaus Störtebeker, que assaltava os navios da liga hanseática e distribuía o saque pelos pobres, à laia de Robin Hood; nas costas africanas, sob a forma de uma república pirata berbere, com um código de conduta ético rigorosíssimo; e depois no Estreito de Magalhães, onde coexistiram duas confrarias de piratas. Uma dirigida por dois holandeses, desertores da marinha de guerra dos Países Baixos, os Van der Meer. E outra que tinha como capitão o Alentejano.

Os piratas sempre encarnaram aquilo que gostávamos de ser e não podemos, a liberdade absoluta.
Claro. Infelizmente, a imagem que temos hoje dos piratas é uma simplificação muito grosseira do que eles foram, uma mitificação ao pior estilo Walt Disney. A mim, por exemplo, fascina-me saber que os piratas da Patagónia e os do Mar do Norte, apesar de separados por centenas de anos e por muitos milhares de quilómetros de distância, tinham muito em comum. A bandeira de Störtebeker era igual à dos Van der Meer e do Alentejano. Nada de bandeira preta, com caveira e tíbias. Não. Era uma bandeira metade vermelha e metade negra. Quatro séculos mais tarde, foi essa também a bandeira dos anarquistas.

A uni-los a todos está a luta contra a ordem estabelecida.
Sim. E a vontade de aplicar uma ideia elementar de justiça: devolver aos mais fracos o que lhes foi tirado pelos mais fortes.

Ao ler a «Desventura final do Capitão Valdemar do Alentejo» fiquei com a sensação de que estava ali o esboço para um romance.
E está mesmo. Num livro de História holandês, descobri que existem umas vinte versões diferentes da morte do Alentejano. E pensei: então vou escrever essas vinte e mais uma. A que está neste livro é a 21.ª e faz lembrar a morte de São Sebastião, crivado de setas. Mas, noutras versões, ele morre em combate, ou no assalto a um navio espanhol, ou executado nas Ilhas Molucas (provavelmente a verdadeira). O romance que ando a escrever há-de recolher todas essas variantes.

Já tem título?
Sim. Vai chamar-se O Alentejano.

O conto que fecha A Lâmpada de Aladino tem um lado simbólico muito forte. Aquela árvore solitária que resiste aos ventos gelados da estepe polar, mantendo-se vertical numa ilha onde tudo caiu, representa mais do que um exemplo de heroísmo. É a metáfora perfeita, o «estandarte necessário da dignidade do Sul».
Nem mais. É isso mesmo: uma espécie de ícone da resistência.

[Entrevista publicada, em versão ligeiramente mais curta, no número 75 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Luis Sepúlveda: “A vida está cheia de literatura””

  1. A superação das fronteiras | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 2nd, 2009 13:16

    […] [Texto publicado no n.º 76 da revista Ler; entrevista ao autor, sobre este livro, aqui] […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges