Luiz Pacheco (1925-2008)

Morreu o Pacheco. O escriba sem medo, o maldito, o bendito, o sacripanta, o pelintra, o míope, o desbocado, o crava, o madraço, o arrasa-livros, o salva-livros, o editor extremoso, o pai aflito, o prosador desassombrado, o lúbrico, o chico-esperto, o espalha-brasas, o fura-vidas, o franco-atirador, o asmático que berrava, o trafulha , o remetente de cartas intermináveis e outras fúrias epistolares, o abjeccionista, o lírico inesperado, o procrastinador, o coscuvilheiro, o crítico que atirava à cara tudo o que tinha a dizer, o marginal, o amigo da onça, o polemista sem meias medidas, o hiper-lúcido, o inimputável, o português mais português de Portugal (no seu jeito malandro de oscilar entre a grandeza e a miséria).
Era um génio? Era. Génio heterodoxo e escangalhado, mas génio. Leia-se o que fez à língua portuguesa em livros como O Teodolito, O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor ou Comunidade. Tratos de amante canalha, coisas milagrosas.
Quando a morte o procurou, ontem à noite, num lar da terceira idade no Montijo, das duas uma: ou lhe fez um manguito dos antigos e riu na cara dela como um alarve, ou deixou-se ir com a mansidão dos resignados mas ainda a mirar-lhe as pernas e a magicar um piropo.
PS — Ao ler o texto de Alexandra Lucas Coelho, no suplemento P2 de dia 7 de Janeiro, apercebi-me de que Luiz Pacheco morreu afinal no trajecto entre a casa de um dos filhos e o Hospital do Montijo (no domingo, partira de um take divulgado pela Lusa). Fica feita a correcção.
[Foto de João Francisco Vilhena]
Comentários
108 Responses to “Luiz Pacheco (1925-2008)”
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[…] bairroaltina. Os justos encómios literários ficam muito bem entregues ao José Mário Silva (que texto tão bem escrito) e ao Daniel Oliveira, entre tantos outros que se dignaram epitafear Luiz Pacheco, numa (ele […]
excelente texto, post, o que se lhe queira chamar. parabéns
Um génio louco e dono de uma loucura genial!
Bibliotecário-Ambulante
Ótimo texto!