Marginais

«(…) Inaugurei uma secção OS MARGINAIS. Conhecem? São os filhos da noite quase todos, uma espécie de Máfia, topamo-nos todos uns aos outros, ajudamo-nos ou sacaneamo-nos conforme a disposição, as raivinhas do momento, as cervejolas, a necessidade premente da sobrevivência. No fundo, constituímos uma força, não coesa, o mais desorganizada e anárquica e libérrima no possível, mas de camaradagem segura, às vezes. Que funciona, tenho larga prática, episódios nem todos para rir (…).
Serão então: afidalgados, decaídos ou interditos pelas fidalgas sifilíticas e cobiçosas famílias, ciosas do seu dinheiro e mando; filhos de boas filhas, gente que estafou centenas e centenas de contos em mulheres, em estúrdia, na jogatana, boa-vai-ela; artistas em potência, irrealizados, por vezes com talento mas uma mola na cachola solta ou partida; ou fracassaram, porque lhes não deram a tempo asas, calor, confiança, possivelmente assim: “Um pouco mais de sol // e fora brasa. // Um pouco mais de azul // e fora além“, lamentou-se Mário de Sá-Carneiro, talvez, e também, um marginal da Bela-Época e viu-se o seu fim.(…)»

[in Textos de Guerrilha, de Luiz Pacheco, Ler Editora, 1979]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges