Me, Isabel and Saramago (3)

Quando alguém fala com José Saramago, o mais difícil é interrompê-lo. Feita a pergunta, o escritor lança-se em longos raciocínios que se estendem sempre um pouco mais para a frente, numa cadência que raras vezes permite a intromissão da pergunta seguinte. Durante a sessão de ontem, Pilar del Río murmurou várias vezes, «faça-lhe a pergunta, faça-lhe a pergunta», mas nem sempre tive coragem de interromper as elaboradas divagações – por vezes semelhantes, em estilo e forma, aos exercícios digressivos dos seus narradores.
Na verdade, Saramago falou sempre como aquilo que é: um escritor. Não um blogger (ou bloguista, ou blogueiro, ou o que quiserem chamar-lhe), mas um escritor. O que lhe interessa é a escrita, a escolha das palavras certas, o prazer de comunicar o que pensa sobre o mundo, as pessoas, os actos, os gestos ou os livros dos outros. Fazê-lo através de um blogue não passa de uma contingência, quase um acaso, uma prova do seu amor por Pilar, que o empurrou gentilmente para um meio (a Internet) que não é o seu. Em duas das perguntas, chamei a atenção para o facto de faltar ao blogue de Saramago quase tudo o que faz com que um blogue seja um blogue: os links são raríssimos, não há blogroll, nem comentários, nem qualquer tipo de interacção com os leitores ou com a restante blogosfera. Saramago assume o solipsismo: ele escreve o que escreve, quem quiser lê, quem não quiser não lê, ponto final. «Eu estou apenas emprestado à Internet», disse, evocando o seu individualismo e a necessidade de não perder mais do que uma hora por dia, ou hora e meia, com as actividades online. Não por acaso, o seu interesse pelo Facebook, Twitter e redes afins é nulo.
Conclusão: como supúnhamos, Saramago tem uma relação problemática com a tecnologia, resolvida por Pilar del Río (que o incentiva a escrever) e pelo apoio técnico de alguns elementos da Fundação Saramago. Em sentido estrito, chamar-lhe blogger é um exagero. Os seus textos no blogue não são posts; são crónicas breves que alguém coloca online, com o imediatismo que a blogosfera permite. E isso já é muito. Que o digam os seus admiradores espalhados pelo planeta, entre os quais aquele leitor, lembrado por Pilar, que todos os dias traduz as prosas saramaguianas para lituano.
Por falar nisto, deixo-vos um episódio que se passou minutos antes do início da sessão. Na sala ao lado, Saramago mantinha uma conversa de circunstância, comigo e com a Isabel Coutinho. Entra um elemento do staff técnico, prende um microfone de lapela ao casaco de Saramago, sai e nós continuamos a inocente charla. Daí a nada, aparece Pilar, a sorrir: «É só para avisar que devem ter cuidado com o que dizem. Telefonaram-me agora, tanto de Lanzarote como da Argentina, a dizer que estão a ouvir a vossa conversa através da Internet.»



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges