Memória da Censura

O grande achado da edição por Nelson de Matos do livro Histórias de Amor, de José Cardoso Pires, está no facto de o leitor poder descobrir à medida que lê (graficamente, cinzento no branco) as palavras, frases e expressões sublinhadas pela Censura salazarista e usadas como pretexto para apreender a primeira edição da obra, em Julho de 1952.
Pelo tipo de corte, podemos avaliar a mentalidade dos censores e a sua pequenez intelectual. Eis alguns exemplos:

«Beijavam-se, e de novo tombavam para o lado e ficavam assim, as bocas entreabertas, os olhos a luzirem. (…) O moço suava, o suor corria-lhe no queixo e nas axilas misturado com a saliva dos beijos.» (pág. 17)

«(…) e a calma caindo de novo no pequeno quarto varrido de claridade, o sol e a perna loura entre os lençóis ainda quentes, tudo muito luminoso e exacto» (pág. 25)

«Depois vestiu-se à pressa e pagou o quarto. Não quis o troco, que diabo, atirou-se pelas escadas estreitas a toda a pressa, e só parou cá fora, na esplanada.» (pág. 26)

«Sou Esmeralda, Esmeralda do Rosário Ferreira, e inda não fiz dezassete anos. Quieto. Esteja quieto, não me beije. Quieto, senhor.» (pág. 55)

«Pelas mesas, à meia luz, estão os casais amigos que saíram do cinema e trocam os pares: agora a madame com o esposo, a esposa com o doutor, o doutor com a mulher do senhor. E os risos, o champanhe, e, pois bem, só queria que ouvisses o que me disse a tua mulher.» (pág. 73)

«Mas é que não tem mesmo espinhas, seu calhordas. Só assim é que os juízes se convencem. Foram quatro? Adiante, a galdéria que se arrume. É o que os juízes vão dizer uns prós outros. A galdéria que se arrume.» (pág. 114)

«– Conversa do catano, sentenciou Heliodoro.» (pág. 117)

«- E que provem? A gente declara que também a comeu, e depois? Alguém pode obrigar um homem a casar com uma galdéria?» (pág. 119)

«O homem está deitado no leito, nu e apenas coberto com o lençol.» (pág. 143)

«Fica-se a vê-la atravessar a casa, o corpo esguio, a curva das costas e das nádegas tão simples e exacta que não tem desenho nem sombra.» (pág. 146)



Comentários

One Response to “Memória da Censura”

  1. Bibliotecário de Babel – As marcas cinzentas do lápis azul on Outubro 27th, 2008 11:15

    […] Memória da Censura […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges