Memorial de Salomão

A Viagem do Elefante
Autor: José Saramago
Editora: Caminho
N.º de páginas: 258
ISBN: 978-972-21-2017-3
Ano de publicação: 2008

Dez anos após o Prémio Nobel da Literatura, e prestes a completar 86 anos [aniversário que entretanto se cumpriu, a 16 de Novembro], José Saramago dá mostras de uma extraordinária vitalidade criativa. Não só se desdobra em acções promovidas pela sua Fundação, presidida por Pilar del Rio, como começou recentemente a escrever na blogosfera, dando um passo que outros romancistas, alguns bem mais novos, ainda não se atreveram a dar. Cereja em cima do bolo é a publicação de A Viagem do Elefante, o romance em que regressa à melhor forma literária, depois de uma sequência de alegorias menores sobre os malefícios da globalização (A Caverna, 2000), as fragilidades da democracia (Ensaio sobre a Lucidez, 2004) e o mais antigo dos temores metafísicos (As Intermitências da Morte, 2005).
Salvaguardadas as devidas distâncias, se há livro com o qual A Viagem do Elefante pede comparação, tanto em termos de estrutura como de fôlego narrativo, é Memorial do Convento (1982). Não há aqui um convento a servir de metáfora do país, nem instrumentos musicais no fundo de poços, nem voos de passarola, nem personagens tão fortes como Baltasar e Blimunda. Mas há a mesma capacidade de fixar um momento da nossa História, construindo à sua volta um universo verbal («porque tudo isto são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada»), um universo que se expande e vai abarcando as várias faces da experiência humana.
Na sua simplicidade, o título não podia ser mais literal. A história do livro confunde-se com a de Salomão, o elefante indiano que D. João III resolveu oferecer, em 1551, ao arquiduque austríaco Maximiliano II, então regente de Espanha. A odisseia do «bruto paquiderme» através da Europa é longa e difícil: do cercado em Belém à corte de Viena, passando por Figueira de Castelo Rodrigo, Valladolid (onde é entregue aos cuidados do arquiduque) e pelos terríveis Alpes, onde a passagem do Isarco ou o desfiladeiro de Brenner se assemelham a armadilhas de neve e gelo.
Saramago é especialmente eficaz a descrever a forma como a caravana se organiza e desloca, perturbando a ordem dos lugares por onde passa, fascinando as gentes e alimentando mitos (entre eles o do falso milagre de Pádua, mesmo a jeito da Contra-Reforma que se preparava ali tão perto, em Trento). No fim, o animal e a sua extenuante jornada são apenas um «pretexto, nada mais». Um pretexto para o narrador, tipicamente saramaguiano (isto é, metaliterário, auto-irónico e com tendência para abusar dos anacronismos), cumprir a sua missão: a de nos prender aos sortilégios da literatura.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 74 da revista Ler]



Comentários

10 Responses to “Memorial de Salomão”

  1. Morse on Novembro 28th, 2008 21:44

    disse me um amigo meu da Porto Editora que a Wook só ofereceu cinco livros do Saramago. Está-se tudo a rir lá dentro.

    Cumpriram a sua missão:

    dar a conhecer a livraria virtual com publicidade enganosa.

    muitos milhares vao entrar este ano…

  2. Tim James Booth on Novembro 29th, 2008 1:11

    A cada livro deste senhor que eu leio mais fascinado fico… Este é, sem dúvida, um dos melhores de sempre.

    Cheers

  3. Maraisa batista da silva on Novembro 30th, 2008 14:38

    Bom dia turma, Saramago é realmente sensacional;tiro o meu chapeu para elê;
    uma fãm, antenada; Maraisa;

  4. Eduardo Serra Lopes on Novembro 30th, 2008 17:46

    o meu só chega pelo Natal:)

  5. via on Dezembro 1st, 2008 0:18

    gosto e não gosto do saramago, não posso deixar de concordar com o MEC que numa revista de lietratura, não me recordo o nome mas saiu há pouco, disse que parece que escreve para a posteridade e que se envaidece escrevendo, penso que talvez trauma do Nobel, por outro lado admiro algumas frases brilhantes mas ainda não consegui lê-lo com o prazer com que leioCamilo Castelo Branco, ignorância minha certamente!

  6. José Cipriano Catarino on Dezembro 1st, 2008 12:32

    Influenciado pela crítica muito positiva de JMS, comprei a Viagem do Elefante. Uma desilusão. Diálogos triviais, conversa chata, anticlericalismo primário, zero de novidades num autor que, no passado, tanto me surpreendeu. Neste livro não há sequer um pálido reflexo do Saramago de Levantado do Chão, Memorial do Convento, Jangada de Pedra. É possível que um círculo protector, feito de muitas conveniências, algumas amizades e carinho, tenha separado o autor da realidade e, envaidecendo-o, lhe tenha diminuído o sentido autocrítico. Vejo em Saramago um Mestre – mas não em narrativas como esta.

  7. Mundo De Aventuras on Dezembro 2nd, 2008 0:44

    Parece-me que há dois Saramagos na minha estante. Um que é “Deste mundo e do outro” que preencheu espaços ao lado de José Gomes Ferreira e Fernando Namora, na época em que construía com afinco um sistema, uma “grid”, para encarar o mundo. Outro que leio agora, com quem me cruzo pelos caminhos, que tem olhares inexpressivos de uma certa pressa “socializante”.

    Falta-me ver onde acaba esta “viagem do elefante” que ainda não li.

  8. Seguir o elefante | Bibliotecário de Babel on Junho 17th, 2009 11:29

    […] meses após o lançamento de A Viagem do Elefante, o mais recente romance do nosso Nobel, a Fundação José Saramago decidiu responder, in loco, às […]

  9. A Seve on Junho 24th, 2009 14:51

    Seve disse…

    Tal como Tim James disse, cada livro que leio do Saramago mais fico fascinado.

    É realmente um fascínio a escrita deste grande escritor português. O maior.

  10. Mais um prémio para ‘O Filho Eterno’, de Cristovão Tezza | Bibliotecário de Babel on Setembro 5th, 2009 11:07

    […] contra a lei das probabilidades, meio inverosímil.» Entre os finalistas estavam José Saramago (A Viagem do Elefante), Lídia Jorge (O vento assobiando nas gruas) e Chico Buarque (Leite Derramado). Em Novembro de […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges