Memórias correntes
Numa recolha de depoimentos feita pelo Diário Digital junto de vários editores, Francisco José Viegas evoca com muita graça aquilo a que poderemos chamar o “espírito” das Correntes d’Escritas. Eis um excerto:
«Das duas últimas edições trago recordações literárias importantes, alinhadas entre as memórias dessa semana da Póvoa. Entre elas estão: 4 garrafas de Jameson, novo, e uma de Bushmills, malte; um saco de gelo usado para ilustrar a presciência do Jameson, e subtraído com codícia aos frigoríficos do bar do hotel, já fora de horas; o frio que os fumadores apanham no hotel, junto da piscina, à noite; 17 anedotas literárias ou académicas contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 4 trocas de nomes de convidados, da responsabilidade de José Carlos Vasconcelos; o bigode de Leonardo Padura (não me refiro à barba); uma gracinha dita por Luís Fernando Veríssimo durante uma das cinco vezes (no total) em que experimentou falar; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de Mia Couto, e que o trocaram por José Eduardo Agualusa; uma peça de lingerie encontrada num corredor do sexto piso, perto do quarto onde Daniel Mordzinsky tira as suas melhores fotografias; 3 anedotas de cariz eminentemente sexual contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 16 pacotes de Chesterfield esgotados por Carlos da Veiga Ferreira; uma edição da Playboy brasileira à venda no quiosque do hotel; o esparregado, as batatas salteadas, a salada de feijão e os ovos verdes do buffet do hotel; os chapéus de Manuel Rui; o ar de tédio do colombiano Santiago Gamboa ao pensar que está de regresso a Mumbai; 5 anedotas de motivo principalmente religioso contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; a inveja por uma das camisolas de gola alta de Almeida Faria; a inveja por José Manuel Fajardo, em geral e por um motivo em particular; a descoordenação motora e vocal de Isabel Coutinho durante os pequenos-almoços; o bigode (entretanto desaparecido) de Antonio Sarabia; o bigode (nunca desaparecido) de João Rodrigues; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de José Eduardo Agualusa, e que o trocaram por Mia Couto; (…) uma aparição de Enrique Vila Matas; duas sestas que dormi na varanda do hotel enquanto os meus colegas discutiam, empenhada e entusiasticamente, o devir da literatura, a importância da Língua Portuguesa, o silêncio das esferas, e a vida estrepitosa dos escritores, creio que do Uruguai, mas não me lembro. Gostei de tudo.»
Comentários
One Response to “Memórias correntes”
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Percebe-se agora o porquê de uma parte do fjv aumentar de edição para edição…:)
Acho que foi o ano passado ou talvez no anterior (tal como este ano tinha um compromisso em Lisboa) que vim directo para as Correntes d’Escritas.Directo, bem, vim a Braga e fui logo para a Póvoa.
Qdo cheguei estava mesmo a começar uma mesa onde estava o fjv e, coincidencia, o Gonçalo M.Tavares, que tinha vindo comigo no alfa dessa tarde e, só nessa altura, é que percebi de onde o “conhecia” – da capa de livros.
Sentei-me nas escadas por já não ter lugar e os meus olhos devem ter parado demasiado tempo, na parte que aumenta de correntes para correntes no fjv porque notei que ele me olhava e resolvi não comentar a coincidencia que estava inserida até no tema da mesa e no debate que se seguiu para não me perguntarem o nome e sendo o meu nome fácil de recordar o fjv calhar de dizer.
“Ah! Henedina. Não estava a olhar para mim como homem, estava a olhar para o meu perimetro abdominal que junto com o charuto, o Jameson, ser homem e um evidente sedentarismo a preocupa que me impeça de viver, ou de viver com qualidade dado a soma impressionante de factores de risco cardiovasculares que acumulo que a impedem de me achar completamente inteligente.” E que tinham uma prevenção tão fácil.