Mesa 3: ‘Passo e fico, como o Universo’

Chegado a meio da sessão (vindo directamente de Campanhã), ainda consegui ouvir as intervenções do espanhol Isaac Rosa, do brasileiro Bernardo Carvalho e do cabo-verdiano Germano Almeida.
Isaac Rosa reflectiu muito sobre o mote da mesa, um verso de Pessoa que podia ter sido escrito por Antonio Machado, ao ponto de assumir que pode muito bem vir a ser o título do seu próximo romance. Ao mostrar o poema completo de Pessoa a um amigo, para que o ajudasse a discernir o verdadeiro tema da sessão, ele sugeriu-lhe que devia ser sobre a Internet, e-books, blogues, etc., por causa dos primeiros versos: «Da mais alta janela da minha casa / Com um lenço branco digo adeus / Aos meus versos que partem para a Humanidade». A «janela» da casa remeteria para o Windows e os versos partindo em direcção à Humanidade seriam como os versos que toda a gente pode colocar online, fazendo de Pessoa o precursor de uma tecnologia que só surgiria meio século após a sua morte. Quanto à questão que o poema levanta, a de saber para quem escrevemos, Isaac Rosa considera-a uma questão de poeta, não de romancista. Enquanto romancista, Rosa diz que nunca pensa nos seus leitores. O que o preocupa é a responsabilidade, artística e ética, de quem utiliza a ficção, essa forma privilegiada de «nos relacionarmos com o mundo, de estarmos no mundo».
Já Bernardo Carvalho assumiu a sua raiva contra o verso de Pessoa. «Esse verso irritou-me muito», admitiu. «Dá a entender que a poesia, ou a arte, é uma coisa natural, como uma paisagem, quando para mim é o contrário disso, é dificuldade, resistência, combate, singularidade.» A fúria levou-o a escrever um texto, «meio académico», que deixou no bolso, ao contrário da indignação anti-pessoana: «Não concordo nada com isso de passar e ficar. Você faz arte justamente porque você passa e não fica.»
Habitualmente, Germano Almeida costuma improvisar nas sessões das Correntes d’Escritas. Desta vez, porém, trouxe um pequeno texto que não ficou no bolso, em que defende a necessidade do humor e do prazer na escrita, glosa o tema de vários ângulos e lembra o comentário de uma amiga («a minha guru») sobre o verso de Pessoa: «Isso é uma maluquice de poetas e tu não és poeta.» Germano provocou ainda Tânia Ganho, companheira de mesa a quem terá sugerido, em vão, que fizessem um texto a meias. Embora a distância fosse grande, pareceu-me que ela corou com a inconfidência.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges