Mesa 3

André Gago falou da construção do seu romance Rio Homem e da importância de trazer para o presente a memória dos acontecimentos históricos passados. No seu caso, a Guerra Civil de Espanha e II Guerra Mundial, como epicentro de algumas das maiores tragédias da Europa no século XX. «E por que é que escrevo? Escrevo para exercer a minha curiosidade sobre as coisas.»
Pedro Almeida Vieira: «No romance histórico, o escritor não tem rede, tem obstáculos. Em de 100 metros planos, corremos 110 metros barreiras. Pode parecer que a História como tema nos facilita a vida, mas é exactamente o contrário. Quando escrevo sobre o passado, procuro o rigor, claro, evitar anacronismos, tudo isso, mas nunca deixo de ter um pé no presente, no meu presente, para manter o contacto com o leitor de hoje.»
Teolinda Gersão falou essencialmente de política, de economia e do estado ruinoso das contas públicas, um problema antiquíssimo e que nunca deixou de existir em Portugal.
Leonardo Padura abordou o tema da História desconhecida da União Soviética, sobretudo no que diz respeito às relações da U.R.S.S. com os movimentos comunistas internacionais. No caso do assassinato de Trotsky, tema do seu último romance, houve muita informação perdida, porque Stalin tinha o hábito de destruir os documentos relativos às suas decisões e crimes, justamente por ter uma percepção aguda da História que perdura nos livros. O trabalho do romancista passa também por preencher esses hiatos, esses buracos, através do poder da linguagem e da imaginação.
António Vasconcelos Raposo explicou como durante décadas foi incapaz de falar da sua experiência na Guerra Colonial, até ao dia em que começou a acordar de noite, psicologicamente desequilibrado, atormentado pelas memórias dos combates. A salvação, encontrou-a na escrita do romance Até ao Fim – a última operação, publicado pela Sextante e lançado ao início da tarde no LeV. Um romance de que leu um excerto, comovendo-se a dada altura com o regresso ao palco do seu trauma. No fim, com a voz embargada, admitiu: «Isto afinal é mais difícil do que eu julgava.»



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges