Mesa 7

Esta foi a minha mesa. Da esquerda para a direita: Antonio Orlando Rodriguez, Jorge Arrimar, Inês Pedrosa, Vergílio Alberto Vieira (moderador), Paula Izquierdo, eu e Rui Costa.
Eis a transcrição do texto que li:

Boa tarde. Dois escritores encontram-se num bar ao fim do dia, para o whisky do costume. Um deles olha para o outro e reconhece uma sintomatologia: olhos vermelhos, vincos na testa, ombros caídos, um esgar de angústia e exaustão. “O que é que se passa?”, pergunta. “Estás outras vez bloqueado?” O outro abana a cabeça e suspira: “Não, não. Por acaso o romance até está quase pronto, preciso só de limar os diálogos.” O amigo chega-se mais e murmura: “Não me digas que te vais separar outra vez?” O olheirento bate com os nós dos dedos no tampo do balcão, três vezes: “O diabo seja surdo, cego e mudo. Nada disso, pá, nada disso. Não agoires.” “Então o que é que se passa? Desabafa lá.” Embaraçado, o outro hesita, pigarreia, pede outro whisky e tamborila os dedos, antes de dizer, quase a medo, num fio de voz, “Enfim, sabes como é”. “Como é o quê?” Silêncio, barulho de gelo no copo. E o amigo bate com a mão na testa: “Espera lá, tu não me digas que…” “Sim, voltaram a convidar-me para uma das mesas das Correntes d’Escritas” “Xiii, coitado!” “Pois é, e agora ando às voltas com um daqueles temas malucos e eu faço a mínima ideia do que hei-de dizer.”
Esta cena é inventada, claro, mas os olhos vermelhos, os vincos na testa e os ombros caídos andam por aí, não sei se repararam. Há mesmo quem diga que a presença nestes debates é uma espécie de perverso ritual de passagem: a hospitalidade da Manuela Ribeiro, do Francisco Guedes e da imensa equipa que organiza este encontro único tem um preço. Os quatro dias na Póvoa, é preciso merecê-los. E isso passa por conseguir superar o desafio de temas sabiamente armadilhados, quase sempre reduzidos a frases ambíguas, a motes feitos de alçapões e paradoxos. Na edição do ano passado, lembro-me de ver nesta mesa o escritor guatemalteco Eduardo Halfon, explicando a sua perplexidade diante do assunto que lhe coube: ‘A Literatura Rasga a Realidade’. Confundido, ele escreveu imediatamente um e-mail à Manuela Ribeiro, pedindo mais explicações. Cito: “Perguntei-lhe se o tema era o cruzamento entre a literatura e a realidade, ou antes a irrupção da realidade na literatura, ou antes ainda a irrupção da literatura na realidade, ou o quê. E ela logo me respondeu: Isso mesmo.”
Não vale a pena dar a volta às coisas: as Correntes d’Escritas são assim. E se não fossem assim, não eram as Correntes d’Escritas. Pela minha parte, que passei da plateia para o palco (o que desde já agradeço), não me posso queixar. De entre tantos motes perigosos, coube-me um dos menos escorregadios: ‘Por onde me levam os livros?’ E a subtileza desta vez concentra-se toda naquele pronome, “me”, que liberta o orador do fardo da objectividade e do pensamento generalista. É de cada um de nós, enquanto leitores individuais, enquanto seres únicos diante do labirinto da bibliofilia, que se trata. E isso parece-me muitíssimo bem, porque, de todos os leitores do mundo, eu sou precisamente o leitor que conheço melhor (ou julgo conhecer, o que neste caso vai dar ao mesmo).
Por onde me levam os livros? Sinto-me tentado a dar a resposta mais óbvia: levam-me por todo o lado. A literatura é, foi e continuará a ser o mais completo dos passaportes. Aquele que nos permite viajar até aos confins do mundo sem sairmos do nosso quarto. Sim, um livro pode ser uma caravela, um TGV, uma nave espacial, uma máquina do tempo. Isto é, um meio de transporte, mas no sentido metafísico do termo. Quando o metemos no bolso, é uma multidão que metemos no bolso: dezenas de personagens, as suas vidas, as suas rotinas, os seus júbilos, a sua solidão. Quando o arrumamos na estante, arrumamos épocas inteiras, impérios, dinastias; ou então coisas pequenas, um cortejo de gestos, palavras por dizer, crepúsculos, amores perdidos. Um livro pode levar-nos à esquina de uma rua que não existe, mas é todas as ruas, ou ao fundo mais fundo do universo.
Posso dar exemplos. É sempre bom dar exemplos.
A Patagónia. Terra fria, na ponta mais remota da América do Sul, quase quase a chegar à Antártida. Eu nunca fui à Patagónia. Mas eu já fui à Patagónia com Bruce Chatwin. Deambulei com ele por aquelas terras desoladas, procurei com ele os vestígios de um brontossauro que afinal era uma preguiça-gigante, vi com os seus olhos o gelo e os albatrozes, aprendi com ele a soletrar a palavra Ushuaia.
Outro exemplo. Eu nunca estive na costa Leste de Inglaterra, em East Anglia, condado de Suffolk. Mas eu estive na costa Leste de Inglaterra, em East Anglia, no condado de Suffolk, ao acompanhar o escritor W. G. Sebald nas longas caminhadas sob um céu de nuvens que ele fez em Agosto de 1992 e relatou num livro magnífico e inclassificável: Os Anéis de Saturno. Agora que penso nelas, tenho a certeza que as paisagens descritas por Sebald, com as suas frases muito longas, muito precisas e muito elegantes, fios de uma longa rede de derivas e melancolias, reflexões filosóficas e apontamentos eruditos, evocação de tragédias colectivas e de reminiscências pessoais, tenho a certeza que essas paisagens são muito mais verdadeiras do que as paisagens que eu encontraria na costa Leste de Inglaterra, em East Anglia, no condado de Suffolk, se lá fosse um dia (e talvez nunca vá).
Os livros não nos levam, porém, apenas a lugares que existem. Também nos conduzem a lugares impossíveis. Jamais esquecerei o assombro com que descobri, cheio de pavor, maravilhamento e vertigens, a Biblioteca de Babel criada por Jorge Luis Borges, as suas galerias hexagonais, os vastos poços de ventilação e essa promessa fascinante (quer dizer, assustadora) de um espaço infinito em que existiriam todos os livros possíveis, incluindo os inúteis, os redundantes, os ilegíveis.
Outros lugares impossíveis a que cheguei através de um livro: as cidades invisíveis de Italo Calvino. Esses prodígios de arquitectura mental que erguem dentro da nossa cabeça o seu esplendor, a sua beleza e as suas ameaças. A maior parte das pessoas lamenta-se por ainda não conhecer cidades concretas: Sydney, Kyoto, Marraquexe, Nova Iorque, Praga, Banguecoque. Eu tenho pena de nunca ter pisado o chão de Maurília, Eudóxia, Moriana, Zemrude ou Aglaura, embora sinta que conheço, quase tão bem como conheço Lisboa, aquelas praças, aquelas muralhas, aquelas avenidas.
Por onde me levam os livros? Tenho falado dos livros dos outros. Mas também poderia falar dos meus, se não temesse a proximidade excessiva e a falta de perspectiva. Para onde me levam os meus livros? Acho que não sei. Ou então sei bem demais. No meu próximo livro, que se há-de publicar em breve, juntei numa das três partes que o compõem uma série de poemas que me empurram de encontro à criança e ao adolescente que fui, na década de 80 do século passado. Foi aí que o livro me levou: à memória do rapazinho que fui, com óculos e características que entretanto se perderam (embora, definitivamente, creio que só os óculos).
Um desses poemas refere no título uma casa baptizada com o nome da minha avó. Passo a ler:

vivenda lucinda

Junto à casa mais pequena havia uma
escada de cimento (no vão a minha avó
guardava bilhas de gás e trapos velhos).
Ao cimo da escada, olhando em frente, via-se
o pinheiro que os meus pais plantaram há muitos
anos, as canas agitadas pela brisa, o tanque [cheio
de algas e girinos, a rede de arame a esconder
coelhos assustados, o poço com uma perpétua
escuridão lá dentro. À direita ficava o telheiro
onde nos abrigávamos da chuva, durante as
longas festas de aniversário (a mesa: toalha
de linho, o bolo com poucas velas, pães
de leite às metades, desenhos geométricos
no arroz-doce). Havia ainda, mais distante,
a figueira – mas isso está noutro poema.

Esse outro poema foi publicado há mais de sete anos, em Setembro de 2001, no meu primeiro livro: Nuvens & Labirintos. O seu título é: a figueira.

a figueira

Dava uma sombra larga todo
o ano e frutos doces no verão.
Lembro-me que era baixa; as
raízes, muito grossas, pareciam
dedos; os ramos entrelaçados
simulavam a selva agreste, onde
sabia estarem o perigo e o mistério.
Lá em cima era o cesto da gávea, onde
resisti às tormentas, aos relâmpagos
e à astúcia sempre maligna dos piratas.
Lá em cima era o refúgio, eram as altas
muralhas defendidas meses a fio, espada
de madeira na mão, contra inumeráveis
alcateias que cercavam o castelo e talvez
o reino. A figueira secou há muito tempo;
já não subo aos seus ramos desde então.
Mas na sua sombra ainda escuto, em tardes
de calor e nostalgia, um estrépito de ondas
no convés e o uivo – longínquo, agudo,
terrível – dos antigos, imaginários lobos.

E se escolhi para terminar este esboço de hipertexto, é porque no fundo suspeito que os livros nos levam sempre, de uma maneira ou de outra, a outros livros, que nos levam por outra vez a outros livros, mesmo quando os links já se tornaram tão subtis, tão ténues ou ocultos, que já nem damos por eles.

Eis agora o que sobre o debate se escreveu numa das várias folhas com que a organização foi resumindo os principais momentos das Correntes d’Escritas:

«Seis envelopes numerados, distribuídos aleatoriamente. Foi esta a nova mecânica para o debate “Por onde me levam os livros”, introduzida pelo moderador Vergílio Alberto Vieira, e que causou alguma surpresa entre Antonio Orlando Rodriguez, Inês Pedrosa, Jorge Arrimar, José Mário Silva, Paula Izquierdo e Rui Costa, os participantes.
E porque o tema se relaciona também com viagem, Vergílio Alberto Vieira fez questão de atribuir a cada participante uma cidade e um escritor a ela relacionado. A Viena de Robert Musil, a Praga de Kafka, a Paris de Mário de Sá Carneiro, a Lisboa de Fernando Pessoa, a Sevilha de José Cabral de Melo Neto e a Alexandria de Durrel abriram, sobre forma de citação, cada uma das seis intervenções.
A Antonio Orlando Rodriguez calhou o envelope número um, destinando-o, assim, a inaugurar o debate. “Os livros podem levar-nos a lugares inesperados”, atirou o autor cubano, recordando que em sua casa não se lia. “Mas eu nasci leitor e a casa encheu-se de livros. A literatura ensinou-me que o mundo era maior que a minha rua, que o meu bairro, que a minha ilha. Ensinou-me que existiam outros mundos, reais e imaginários, que os livros permitiam conhecer.” E foi assim, através dos livros, que Antonio Orlando Rodriguez foi mil e uma personagens, “até os dois maridos de Dona Flor”, brincou. “Os livros levam-nos pelo passado, pelo hoje, pelo futuro. Levam-nos ao encontro de nós mesmos. O romance, a poesia tocam-nos e permitem vermo-nos nas palavras que escrevem outros”, afirmou, fazendo mesmo uma comparação entre livro e espelho, que reflecte sobre aquilo que lemos em nós. Viajar fisicamente é possível, pode-se ir a centenas de lugares diferentes mas “onde estaria eu senão dentro de mim mesmo?”, perguntou.
“Não me interessam para onde me levam os livros no sentido de sítio.” A afirmação é de Rui Costa, que considera que os livros o levam “onde a viagem me faz perder o preconceito, tento sempre aprender mais”, afiançou, num exercício que o leva a ler autores com os quais não sente afinidade. Comunidade, de Luiz Pacheco, Pedro Mexia, sobre o qual Rui Costa diz ser contrário a certas opiniões “mas que não consigo deixar de ler pelo cinismo, pela ironia, pela angústia”, e Daniel Faria, poeta que apesar de noviço no Mosteiro de Singeverga tinha uma poesia “onde há muito físico, muito corpo”, são alguns exemplos. Se ler é viajar, escrever “é uma atitude política, no sentido de que todos os animais são políticos, pois precisam de beber, de comer, de sexo, de arte.” Ficar do lado de fora é esforço que Rui Machado considera infrutífero pois “ficar de fora é sempre a parte de dentro de outro lugar”.
Paris, a cidade que Mário de Sá Carneiro escolheu para morrer é a cidade onde nasceu José Mário Silva, “mesmo não querendo”. A participar pela primeira vez no Correntes d’Escritas, o jornalista freelancer e escritor considera estes temas de debate apontados pela organização “sabiamente armadilhados”. E a armadilha de ‘Por onde me levam os livros’ está, na sua opinião, “subtilmente concentrada no pronome ‘me'” que leva de encontro à individualidade. “Um livro leva-me para todo o lado. É o mais completo dos passaportes. Um livro pode ser uma caravela, um TGV, uma nave espacial, um meio de transporte no sentido metafísico”. Na sua abordagem, considerou também que o livro é uma forma de conhecer novos locais “não só os que existem como os que não existem (…) Se há pessoas que lamentam não conhecer lugares reais, eu lamento não conhecer lugares que não existem.” Sobre os seus próprios livros, José Mário Silva diz que não sabe onde eles o levam, “ou sei bem demais”, referindo, como exemplo, o livro que se encontra a preparar e que o vai levar “às memórias do rapazinho que fui”.
Num sorteio com felizes coincidências, a Lisboa de Fernando Pessoa foi parar às mãos de Inês Pedrosa, Directora da Casa Fernando Pessoa. Evocando uma canção de Caetano Veloso, que diz que odiamos tanto os livros que escrevemos um, Inês Pedrosa criticou alguns livros que não considera livro-literatura. É o caso daqueles “que dizem que entretêm mas que a mim me aborrecem ou os de auto-ajuda que acho ditadores”. Considera um livro-literatura “aquele que inquieta alguém”. E indo ao encontro de José Mário Silva, que também viaja através dos livros, Inês Pedrosa, que os considera “a minha pátria, a minha febre, a minha cura”, vê no livro “um escape”, referindo o desassossego das pessoas “que pensam que por mudar de ares mudam de cabeça”. Através dos livros, Inês Pedrosa já viajou até Buenos Aires, Praga e S. Petersburgo. “Os livros que li e leio levam-me a escrever livros. Não sei como se vive sem o calmante das palavras.” Aprender através do livro foi outros dos pontos que Inês Pedrosa assinalou. “Conheci o mundo através da ficção e conheci o coração através da poesia e da filosofia.”
Paula Izquierdo foi a participante que se seguiu. E foi por entre muitas gargalhadas que a psicóloga e escritora acabou por confessar que interpretou mal o tema. Por isso, em vez de ‘Por onde me levam os livros’, a plateia foi brindada com uma intervenção sobre ‘O que vai ser dos livros’. “Calha bem, porque estamos em crise”, gracejou, mas mesmo assim fez referência a um dos pontos já debatidos em apresentações anteriores: o livro como viagem. “Ler um livro é o mais barato que se pode fazer sem sair de casa. Pode levar-nos a lugares longínquos (…) e permite-nos viver todo um leque de emoções sem sair do sofá.” Afirmando não se preocupar tanto com a vida dos livros como se preocupa com a vida dos escritores, dos poetas, dos contadores de histórias, apresentou uma solução bem humorada para rebater a crise do meio literário: “os que visitam as livrarias podiam começar a pagar a entrada.” Afiançou mesmo que, enquanto escritora, o que importa é que sobreviva, que seja lida. O pouco tempo de vida dos livros contribui também para esta crise, pois “ao fim de 40 dias ou menos o livro sai das prateleiras e é reencaminhado para uma trituradora de papel para que dali se imprimam novos livros”.
O bom humor manteve-se com Jorge Arrimar, escritor angolano. “Se eu vos falar de livros que já li, estou a falar-vos de livros que já leram. Por isso vou falar de livros que de certeza vocês nunca leram ou ouviram falar, que são os meus.” E de facto a escrita de Jorge Arrimar está intimamente ligada aos locais onde viveu. É o caso de Ovatyilongo, livro editado em 1975, escrito em Angola “numa altura em que não era fácil escrever” e que o levou a conhecer melhor o seu povo, as pessoas que o rodeavam. Mudando-se para os Açores, deparou-se com o problema de viver sem reparar no que o rodeava. Só quando se apercebeu da realidade que o cercava, é que começou a escrever. “Eu sou muito distraído e se não escrevo passo pelas coisas e esqueço-me delas.” Já em Macau escreveu A Fonte do Lilau e Secretos Sinais, produtos dessa mesma abertura à cidade. Mas houve um livro que o levou até Angola, antes mesmo de ele lá voltar. Planalto dos Pássaros, escrito nos Açores, “foi o romance que me fez regressar de uma forma tranquila à minha terra-natal”.
Como conclusão desta sétima mesa de debate pode dizer-se que a vários locais levam os livros. E esta viagem pode ser feita pelo leitor, que viaja por entre as paisagens e locais descritos, como pelo autor, que viaja dentro de si mesmo. O que realmente importa é que estejamos abertos a essa viagem, pelo tempo ou pelo espaço, por mundos reais ou imaginários.»



Comentários

2 Responses to “Mesa 7”

  1. mariaantonietapreto on Fevereiro 17th, 2009 13:22

    Ainda não o tinha feito, faço-o agora. Obrigada pela tua extraordinária intervenção, José Mário. Obrigada pelas intervenções – de extraordinária qualidade- que inundaram as Correntes. Outra coisa não seria de esperar desta brilhante iniciativa literária da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.

  2. Manuel Carlos Osório on Agosto 14th, 2009 10:26

    Tristeza das tristezas, estes debates. estas mesas redondas já sem qualquer expressão intelectual ou literária, sempre pejadas dos mesmos nomes que comem à mesa da cultura instituida. Sem ideias, sem exemplos para dar, sem literatura digna desse nome. Quem deu de mão beijada a herança cultural deste país aos mesmos 12 gatos que se louvaminham mutuamente e nunca nos deixam em paz?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges