Mistérios piramidais

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O Símbolo Perdido
Autor: Dan Brown
Título original: The Lost Symbol
Tradutores: Carlos Pereira, Ester Cortegano, Fernanda Oliveira e Marta Teixeira Pinto
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 571
ISBN: 978-972-25-2014-0
Ano de publicação: 2009

Seis anos após O Código Da Vinci, um livro que lhe deu o estatuto de romancista mais imitado dos últimos anos (é só conferir a quantidade absurda de epígonos que continuam a invadir as livrarias com réplicas manhosas), Dan Brown regressa ao activo com O Símbolo Perdido. Infelizmente, tal como os seus imitadores, o escritor norte-americano não resistiu a fazer do seu novo romance um clone pobrezinho do anterior. Desta feita, em vez de Paris, temos Washington. Em vez dos segredos e rituais da Opus Dei e do Priorado de Sião, temos os segredos e rituais da Maçonaria (mais o deísmo dos «pais fundadores» da América). Em vez de um vilão albino e autoflagelador (Silas), temos um vilão coberto de tatuagens, castrado, sádico e desejoso de se transformar num deus das trevas por via de uma apoteose mística (Mal’akh). Mas o resto é igual. Acção a rodos, personagens unidimensionais a correr de um lado para o outro e o nosso conhecido Professor Robert Langdon – um castiço professor de Harvard, supostamente céptico mas que acaba por acreditar nas teorias mais inacreditáveis – a perorar sobre os Mistérios Antigos e a simbologia maçónica, enquanto desvenda, com a presteza de quem resolve um sudoku de nível médio, toda a sorte de enigmas e códigos dentro de códigos, que são a chave de outros códigos ainda.
Mais do que um thriller, O Símbolo Perdido é uma sucessão de desafios mentais e enciclopedismos básicos, um rally paper para frequentadores da Biblioteca Nacional. Dos quadrados mágicos de Albrecht Dürer e Benjamin Franklin aos últimos avanços da ciência noética (segundo os quais o pensamento humano pode ter um efeito físico sobre a matéria), passando por vários tipos de pirâmides e pela escultura Kryptos, de James Sanborne (instalada na sede da C.I.A. em Langley, Virginia), neste enredo cabe tudo e mais alguma coisa. Tudo menos um bocadinho de bom senso. Na sua ânsia de abrir portas que iluminem os maiores segredos do universo, sempre à beira de serem revelados, Brown consegue agarrar o leitor, não o largando nem por nada (esse mérito ninguém lho tira), mas depois deita tudo a perder, ao defraudar as expectativas com um desfecho tão pífio que se torna risível. Após quase 600 páginas de leitura compulsiva, a revelação do extraordinário tesouro escondido no subsolo de Washington merece entrar directamente para o top dos maiores anticlímaxes da história da literatura. Isto, claro, se tivermos a generosidade de considerar que O Símbolo Perdido é literatura.
Entendamo-nos num ponto. Enquanto exercício de entretenimento puro, este livro, como os outros de Dan Brown, funciona muito bem. Embora abuse dos efeitos de suspense no final dos capítulos (curtíssimos, às vezes quase sinópticos) e não seja propriamente subtil na articulação dos vários sub-enredos, o mecanismo narrativo é robusto e de uma surpreendente eficácia. Quem entra neste carrossel de pistas e revelações tem dificuldade de sair, entre outros motivos porque o grau de inverosimilhança atinge tais proporções que o leitor quer perceber até onde consegue Dan Brown esticar a célebre «suspensão da descrença».
Por outro lado, se esta viagem se torna muitas vezes penosa não é tanto pela insistência do autor em dar-nos enfadonhas lições sobre os temas que lhe interessam, por vezes repetindo a mesma ideia com poucas páginas de intervalo. É porque Brown escreve mal e o seu estilo – desastradamente pomposo, enfático, vulgar – parece uma pirâmide de chumbo. Uma pirâmide sem mistério algum e que nem o esforçado Robert Langdon, com a sua arte de descodificação simbólica, alguma vez conseguirá transformar em ouro.

Avaliação: 2/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

9 Responses to “Mistérios piramidais”

  1. Conrado Alves on Novembro 4th, 2009 22:59

    Se é certo que o livro deve ser péssimo (basta ler dois livros do Dan Brown para perceber que se trata de uma fórmula express), o que dizer de uma tradução feita a quatro mãos? 4? Estará tudo doido?

  2. Rui Viegas on Novembro 5th, 2009 1:17

    É preciso ter tomates para ir aos States entrevistar o homem e atribuir-lhe uma classificação 2/10. Grande Zé Mário

  3. Carlos on Novembro 5th, 2009 13:25

    Eu ainda não li o livro, mas este tipo de comentários desde logo me intriga.

    Porque é que um livro, se for “demasiado” na linha de um êxito anterior, é mau?
    Porque é que um livro, se for de entretenimento puro, é mau?

    Por mim, as duas anteriores imagens são duas razões para o ler
    Cumprimentos

  4. José Mário Silva on Novembro 5th, 2009 16:17

    Conrado,

    A tradução feita por quatro pessoas tem uma explicação lógica. O livro foi publicado nos EUA a 15 de Setembro e os agentes não libertaram o texto antes (devido ao secretismo obsessivo de Dan Brown). Para conseguir ter um livro de 571 páginas pronto em mês e meio, a Bertrand viu-se obrigada a criar uma ‘task force’. E, diga-se em abono da verdade, o resultado é bastante satisfatório. Não há grandes desequilíbrios nem se notam as mudanças de mãos, talvez porque houve pelo menos duas revisões do texto, feitas por pessoas diferentes.

  5. José Mário Silva on Novembro 5th, 2009 16:22

    Carlos,

    O livro ser quase igual aos anteriores não é necessariamente mau, mas revela as enormes limitações de Dan Brown como escritor e o facto de estar aprisionado a uma fórmula. Ser puro entretenimento também não é mau por si só. O problema de ‘O Símbolo Perdido’ é estar mal escrito e enredar-se numa trama complexa que se autodestrói com o seu ridículo desenlace.

  6. Gomes on Novembro 5th, 2009 19:18

    Não é propriamente uma discórdia. Nem o pode ser, porque ainda não li o livro em questão. Trata-se antes de uma opinião sobre a hipocrosia acerca de Dan Brown por parte de muito boa gente (não dirigida ao seu caso concreto).

    http://gomes-alexandria.blogspot.com/2009/11/dan-brown-o-mcdonalds-da-literatura.html

    Com os melhores cumprimentos
    Gomes

  7. Dan Brown: “Eu queria muito que toda a gente gostasse do meu trabalho, mas não é assim que funciona” | Bibliotecário de Babel on Novembro 9th, 2009 13:30

    […] em Meia hora mais tarde, a poucos metros de distânciaDomingos da Mota em O fim das QuasiGomes em Mistérios piramidaisJosé Mário Silva em Mistérios piramidaisJosé Mário Silva em Mistérios […]

  8. “O gozo destes livros está na sucessão de códigos e segredos para desvendar” « Animal Civilizado on Novembro 18th, 2009 19:44

    […] Dan Brown, numa entrevista a propósito de O Símbolo Perdido, publicada no Bibliotecário de Babel. No mesmo blogue, está disponível para leitura uma recensão sobre o livro. […]

  9. apreciador de Dan Brown on Novembro 19th, 2009 13:17

    Do alto das suas dezenas de milhões de livros vendidos (que correspondem a dezenas de milhões de leitores interessados (digo eu) ), Dan Brown deve rir-se de análises supostamente eruditas e intelectuais.
    Dan Brown já disse que não lhe interessa a linguagem mas sim o enredo da história.
    Não lhe interessa a textura do papel de embrulho mas o conteúdo.
    Será que é possível aceitar diversos estilos de escrever e contar histórias, ou somos todos burros os que gostamos de Dan Brown?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges