Mitos, equívocos e contradições

100 Mitos sobre o Médio Oriente
Autor: Fred Halliday
Título original: 100 Myths about the Middle East
Tradução: Pedro Serras Pereira
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-972-8955-69-4
Ano de publicação: 2008

Embora se perfile como uma obra de divulgação para o grande público, este livro de Fred Halliday (especialista em Relações Internacionais e professor na London School of Economics) cria para si mesmo um programa tão ambicioso quanto arriscado: a identificação de uma centena de “mitos” – culturais, linguísticos, religiosos, políticos, etc. – sobre o Médio Oriente e respectiva desmontagem, com argumentos claros e explicações sucintas.
O principal mérito de Halliday está no facto de não tomar partido nos diferendos que incendeiam a região, erro que costuma enviesar a maioria das abordagens ao conflito israelo-árabe. Além de recordar factos concretos (por exemplo, o de que “todos os estados do Médio Oriente são criações modernas, fruto do colapso dos impérios otomomano e czarista russo, no final da Primeira Guerra Mundial”), o autor mostra como os nacionalismos sempre instrumentalizaram o passado e transformaram a História (ou a autoridade dos textos religiosos) em ideologia. Recorrendo a comparações simples, Halliday nega ainda o suposto carácter excepcional do Médio Oriente em relação ao resto do mundo, entre outros lugares-comuns reforçados pelos media (nomeadamente os que se prendem com a visão distorcida do que é o Islão).
Acontece que o trabalho de Halliday, “necessariamente subjectivo e por vezes aleatório” (como o próprio admite), não tem a consistência e a solidez exigíveis num projecto desta natureza. Muitos dos mitos são redundantes, demasiado óbvios, pouco significativos. E algumas das refutações estão incompletas ou avançam argumentos frágeis. Por exemplo, a “resposta” ao mito 57 (sobre as verdadeiras forças por detrás da Revolução Iraniana de 1978-79), termina com a seguinte frase: “Não existe informação suficiente para refutar este tipo de afirmações tendenciosas, mas podem apresentar-se explicações mais fundamentadas e plausíveis.” Podem apresentar-se explicações mais fundamentadas e plausíveis, diz o autor, mas depois não as apresenta.
Mais graves são certas contradições internas, sobretudo em quem é tão lesto a apontar equívocos e falácias alheias. Na página 48, lê-se: “A menos que seja previamente contextualizado, o uso do termo ‘Ocidente’ para denotar um processo político identificável ao longo dos séculos tem pouco sentido.” Contudo, logo na página 51 (e no resto do livro), o termo Ocidente volta a aparecer, sem aspas e sem contextualização. Já na página 82, explica-se que a “riba”, interdita pelo Corão, significa “aumento”, embora a palavra seja “arbitrariamente traduzida por alguns comentadores como ‘juro'”. Ora um desses comentadores arbitrários parece ser o próprio Halliday, que mais adiante não se coíbe de escrever: “Em árabe, ‘riba’ significa ‘juros’, os quais são proibidos pelo islão” (pág. 223).
Para piorar as coisas, a tradução tem muitas falhas que escaparam ao escrutínio habitualmente rigoroso da editora Tinta da China. Dois exemplos. Na página 87, um dos mitos é enunciado assim: “Os EUA, por intermédio da sua embaixadora em Bagdade, April Glaspie, encorajaram Saddam Hussein a invadir o Iraque em Agosto de 1990.” Como é óbvio, Saddam não invadiu o seu país (o que seria cómico), mas sim o Kuwait (o que foi trágico). Na página 107, um outro livro de Halliday, The Making of the Second Cold War, é anacronicamente transformado em The Making of the Second World War.

Avaliação: 4/10

[Versão aumentada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

One Response to “Mitos, equívocos e contradições”

  1. Teresa Coutinho on Setembro 17th, 2008 7:48

    Já tinha notado neste livro quando me enviaram a newsletter. Acho importante percebermos melhor os acontecimentos atuais e a razão de existência de certos factos, seguramente será um livro que vou comprar.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges