Moldar o ‘Bairro’


Da esquerda para a direita: Hélder Nascimento, Marta Aranha e Diogo de Castro Guimarães

O interesse de Gonçalo M. Tavares pela arquitectura remonta à infância. «Em pequeno, lembro-me de me fascinar com a forma como as casas crescem. Antes de serem uma coisa em altura, elas são um buraco. Começam lá em baixo, nas fundações; só depois são capazes de elevar-se.» Há também o traço. O traço do desenho arquitectónico, irmão do traço que inscreve letras e palavras numa página. Com uma diferença: o traço arquitectónico, «quando é responsável», faz no mundo «o que prometeu no papel». Ou seja, «tem uma consequência material», transforma-se em «coisas com volume».
Foi justamente à transformação das suas ideias literárias em «coisas com volume» que o escritor assistiu, durante as várias fases do projecto promovido pelo professor Fernando Hipólito no curso de Arquitectura da Universidade Lusíada de Lisboa. Noutros anos lectivos, Hipólito já tinha desafiado os seus estudantes a criarem espaços habitáveis por anões e gigantes ou por irmãos desavindos, «motéis para viajantes sem destino, museus para os mares e sons, centros de descompressão cerebral». Este ano, a escolha recaiu no universo narrativo da série “O Bairro”, de Gonçalo M. Tavares, e os resultados ultrapassaram todas as expectativas. Os cerca de 400 alunos, do segundo e quinto ano, leram os livros da colecção e puseram-se a desenhar: os mais novos, casas concretas para cada Senhor ou então a biblioteca do bairro imaginário; enquanto os finalistas idealizaram propostas para o conjunto urbanístico completo.
Deste manancial de trabalhos escolares, foram escolhidos 29 projectos (23 de alunos do segundo ano; seis de finalistas) que podem ser vistos, a partir de terça-feira, dia 21 [hoje], na Sala das Colunas da Lx Factory, em Alcântara, onde a exposição “Senhores Projectos” ficará até 26 de Julho (aberta ao público entre o meio-dia e a meia-noite). Para a comissária desta mostra, Helena Botelho, a selecção foi difícil porque a qualidade média dos projectos se revelou surpreendentemente alta: «Havia outros trabalhos que também mereciam ser expostos, mas tínhamos que definir um limite.»
Apesar do carácter virtual do exercício, pretendeu-se que estes projectos funcionassem como «respostas a problemas específicos de requalificação da cidade de Lisboa», procurando soluções para «vazios urbanos parados no tempo» e áreas particularmente degradadas de bairros históricos da cidade, como Alfama e o Castelo. As casas dos Senhores foram pensadas para ocupar um terreno desocupado, entre a Rua de São Mamede (junto ao Teatro Romano) e a Rua da Saudade, com uma considerável diferença entre as cotas. As Bibliotecas ficariam, se fossem mesmo construídas, num espaço entre o Beco do Maldonado e o Miradouro das Portas do Sol. E as propostas de um Bairro completo ocupariam o Pátio D. Fradique, perto do Castelo de S. Jorge.
Embora saiba que é muito difícil que isso venha a acontecer, Helena Botelho gostava de acompanhar a transformação de um destes projectos num edifício real – feitas as necessárias adaptações, claro, às necessidades das pessoas de carne e osso. «Creio que não exagero ao dizer que muitos destes trabalhos poderiam de facto ser construídos», diz Botelho, que ainda não perdeu a esperança: «Era bonito que Lisboa ficasse com uma marca arquitectónica associada ao universo ficcional do Gonçalo M. Tavares.»
Mais do que um edifício isolado, o autor de Jerusalém apreciaria assistir à materialização do Bairro inteiro: «Ver os melhores projectos destes alunos de pé corresponderia a levar ao extremo a ideia de interpretação de um texto. A interpretação de cada livro seria a própria casa. E o leitor transformar-se-ia em construtor.» Contudo, mesmo que os edifícios saíssem do papel, o Bairro ficaria sempre incompleto porque é um work in progress. Basta dizer que do caderno de encargos entregue aos alunos finalistas faziam parte, como clientes virtuais, os oito Senhores publicados até 2008 (Senhor Valéry, Senhor Henri, Senhor Juarroz, Senhor Brecht, Senhor Kraus, Senhor Calvino, Senhor Walser e Senhor Breton) mas entretanto Gonçalo M. Tavares publicou mais um, em Março deste ano: O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas (Caminho). Aliás, este livro será lançado precisamente no dia de abertura da exposição, terça-feira, às 19h00 [hoje], na mesma sala, com uma conferência proferida pelo autor.
Dos 28 alunos seleccionados, falámos com três: Hélder Nascimento, 20 anos, a concluir o segundo ano, autor de uma casa para o Senhor Valéry; Diogo de Castro Guimarães, 19 anos (também no segundo ano do curso), que projectou uma casa para o Senhor Breton; e Marta Aranha, 22 anos, finalista, que imaginou uma hipótese de Bairro para oito Senhores. Dos três, só Diogo conhecia o trabalho de Gonçalo M. Tavares: «Tinha lido O Senhor Valéry mas antes de começar este trabalho quis entrar a fundo no mundo do escritor, para definir conceptualmente o projecto.» Já Marta começou por se assustar: «Eu tive que analisar os oito Senhores e a perspectiva de ler oito livros de seguida pareceu-me terrível. Só fiquei mais descansada quando percebi que eram volumes fininhos e fáceis de assimilar.» Hélder, por seu lado, assume outro tipo de dificuldades: «Sou disléxico, por isso tive que ler o livro várias vezes. O que foi bom. De cada vez, apercebia-me de mais detalhes. E gostei muito. Fiquei com vontade de conhecer o resto da obra dele.»
Ao estudar as idiossincrasias de cada Senhor, Marta depressa compreendeu que seria impossível conciliar mundos tão díspares: «Se fizesse oito casas diferentes, cada uma ao estilo de um dos Senhores, aquilo ficava uma feira, uma confusão. Não dava. Preferi interpretar os livros e criar uma narrativa global. Todas as casas obedecem ao mesmo princípio, em torno de pátios privados, onde eles funcionam como se fossem toupeiras.»
Com os seus perfis de betão, o trabalho de final de curso de Marta faz pensar em Siza Vieira e a quase arquitecta não desdenha a comparação: «É uma referência, claro, mas para ser sincera não tenho heróis. Tento ir buscar ideias a todo o lado, da Biblioteca Pública de Seattle (desenhada por Rem Koolhaas) ao Panteão de Roma, até porque já não há coisas novas, é preciso misturar tudo.» Diogo concorda: «O arquitecto tem que ser uma esponja.» Também ele refere Siza no topo das suas referências, lado a lado com Peter Zumthor, o Prémio Pritzker deste ano. Hélder faz que sim com a cabeça e junta mais um nome: Carrilho da Graça, Prémio Pessoa em 2008.
Ao imaginar um espaço para o Senhor Breton, Diogo não se limitou ao respectivo livro de Gonçalo M. Tavares: «Fui ler também o Manifesto Surrealista e podia ter lido ainda mais coisas. O trabalho de preparação para uma obra nunca está terminado.» Quanto à exequibilidade do seu projecto, não tem dúvidas: «É viável, sim. Com bons engenheiros, tudo se faz. E qualquer pessoa podia viver ali, desde que essa pessoa fosse, claro está, o Senhor Breton.»
O balanço que Marta faz da experiência é igualmente positivo: «Gostei muito. É verdade que o Gonçalo nos deu óptimas ideias, mas acho que ele também vai tirar óptimas ideias dos nossos trabalhos.»

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

3 Responses to “Moldar o ‘Bairro’”

  1. Uma casa para o Senhor Valéry | Bibliotecário de Babel on Julho 27th, 2009 5:59

    […] Moldar o ‘Bairro’ […]

  2. Quando o tecto é um espelho | Bibliotecário de Babel on Julho 27th, 2009 6:09

    […] Moldar o ‘Bairro’ […]

  3. Uma sucessão de pátios | Bibliotecário de Babel on Julho 27th, 2009 6:14

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges