Muitas presenças para uma ausência

funeral_saramago

Estive no cemitério do Alto de São João, na despedida a José Saramago. Vi escritores, vi compagnons de route, vi políticos, vi muitos leitores com livros de Saramago erguidos no ar (como flores, como punhos), vi milhares de rostos anónimos, o povo de Lisboa agradecido ao grande escritor. Só não vi o Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa, incapaz de interromper as férias familiares nos Açores para honrar a memória do único Prémio Nobel da Literatura no universo da língua portuguesa. No fundo, é uma questão de coerência, já que foi uma decisão absurda de um governo liderado por Cavaco Silva (alguém que nunca se importou de exibir as suas limitações culturais) a empurrar Saramago para Espanha. Mas não deixa de ser uma vergonha.



Comentários

12 Responses to “Muitas presenças para uma ausência”

  1. hmbf on Junho 20th, 2010 14:26

    O professor carranca é uma besta quadrada. Ponto final.

  2. Gonçalo Mira on Junho 20th, 2010 15:13

    Claro que isso é verdade, José Mário, mas acaso Cavaco tivesse ido e tivesse expressado o seu pesar, não lhe iria apontar a hipocrisia?

  3. Gonçalo Mira on Junho 20th, 2010 15:14

    *onde escrevi “iria” queria escrever “iriam”. Isto é, não digo que o José Mário lhe criticaria a hipocrisia, mas haveria gente a criticar, parece-me.

  4. José Mário Silva on Junho 20th, 2010 16:08

    Gonçalo,

    Vamos supor que Cavaco Silva não esteve presente porque não quis ser hipócrita. O equívoco está precisamente aí. Enquanto for inquilino do Palácio de Belém, Cavaco não é apenas o cidadão Cavaco Silva, é o Presidente da República portuguesa. Quem faltou ao funeral não foi o antigo primeiro-ministro com alergia à literatura, foi o Presidente de todos os portugueses. Infelizmente, nesta como noutras questões, o cidadão Cavaco Silva não sabe estar à altura do cargo para que foi eleito.

  5. Gonçalo Mira on Junho 20th, 2010 16:14

    Concordo. Mas haveria com certeza muita gente que não iria saber distinguir o presidente da pessoa e acharia que a sua postura seria hipócrita. Enfim, seria criticado também. De qualquer modo, não sendo um grande admirador de Saramago (por conhecer pouco, talvez), não deixo de condenar a atitude de Cavaco Silva e de lamentar a morte do escritor.

    Já o Sousa Lara, manteve-se coerente na sua idiotice.

  6. António on Junho 20th, 2010 16:42

    Concordo com o hmbf: o Anibal é um jerico. E a Maria (professora de português, não é?) está à sua altura.
    Vendo bem, a sua presença ia manchar a merecida homenagem a um grande escritor e grande homem.

  7. José Eduardo Guimarães on Junho 20th, 2010 22:51

    Cavaco está no gozo de férias. Está com a Maria, com os filhos e com os netos a mostrar-lhes os Açores, não sei de auxiliado por cicerone competente que o faça entender o que ignora.
    “Se os gregos inventaram esta lenda, é para que a memória a active quando um homem como Saramago nos deixa.»
    Se os portugueses elegeram este presidente é, também, para que ignore os que partem, Saramagos ou outros. O passado não se apaga, com ele se construiu o presente. A memória não activa o que rejeita(ou). Os cicerones de hoje são os do passado.
    As palavras de Saramago permanecem e renascem nos seus leitores.
    Os actos ou as omissões de Cavaco morrerão nos seus eleitores.
    “compreendi-o com o meu coração”

  8. fallorca on Junho 20th, 2010 23:08

    Estamos a falar do Presidente da República em exercício, e da sua ausência. E ponto final.

  9. Luís Nunes on Junho 20th, 2010 23:12

    Faltou apenas dizer que a segunda figura do estado não esteve igualmente presente. Mas esse é de outra cor, e nós, por hábito, salientamos sempre o preto e o branco; neste caso laranja.

  10. Jorge on Junho 21st, 2010 8:31

    Gostaria apenas de relembrar que o funeral de Saramago não teve, oficialmente, honras de Estado. Tenho para mim que Cavaco Silva esteve bem, pois, ao contrário da elite vigente, não mudou imediatamente de opinião após o falecimento de tão grande escritor. O triste espectáculo que o país deu este fim de semana, com a genoflexão de toda uma inteligência que, durante anos, até à consagração externa com o Nobel, não gostou de Saramago. As razões que levaram a dita “elite” a não gostar de Saramago são, no fundamental, as mesmas pelas quais não gosta de Cavaco: as origens de província, a putativa falta de chá ou as opções políticas. Observando Portugal do estrangeiro, nada do que se passou nestes últimos dois dias infirmou a maravilhosa mesquinhez e hipocrisia dos nossos queridos portugueses.

  11. RC on Junho 21st, 2010 9:47

    É obviamente uma vergonha. Lamentável.

  12. teresa moraes on Junho 22nd, 2010 10:22

    Saramago-homem tinha uma personalidade reflexiva, sensível e de grande qualidade humana. Isto não acrescentou nada para quem é obscurantista e ‘quadrado’ de pensamento deixasse de o ser. Não sou, nem de manifestações nem de missinhas! e, como dizem os brasieiros ‘não tenho carteirinha assinada’ – isto é, não estou inscrita em nenhum partido. Distraí-me da gravidade da doença de Saramago. Atribuí-lhe a qualidade de imortal. Fui apanhada de surpresa e como uma boa sexagenária, comovi-me com a notícia. E tal como há 12 anos lhe fui bater palmas no Largo da Câmara, no domingo, fui-lhe levar um cravo vermelho que larguei junto a outras flores. Encontrei os amigos do costume, não todos ´so alguns’ – uns também já não estão cá, outros, por razões várias não foram. É assim mesmo que as coisas funcionam. Admirei muito o discurso da Vice-presidenta Tereza de La Vega, como somos tão iguais e tão diferentes de nuestros irmanos….

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges