Na margem de poucos versos

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A mãe de todas as histórias
Autor: José António Almeida
Editora: Averno
N.º de páginas: 90
Ano de publicação: 2008

Poeta muito mais do que bissexto (o seu livro anterior, O Rei de Sodoma e Algumas Palavras em Sua Homenagem, é de 1993), José António Almeida regressou à publicação quase em simultâneo com outra voz, a de Fátima Maldonado (Vida Extenuada, & Etc), também ela saída de um longo silêncio. Nos dois casos encontramos uma espécie de desfasamento em relação a um mundo impróprio para consumo, mas se em Maldonado essa estranheza se traduz em versos de denúncia, ora amarga ora sarcástica, em Almeida ela acentua um movimento de clausura no interior das suas próprias obsessões.
Nos 71 poemas do volume, há dois eixos temáticos principais. Um é a expressão do amor homossexual, com os seus arroubos, engates fugazes, desilusões, simbolismos (o mito de Ganímedes), rostos lembrados muitos anos depois e jogos de sedução que percorrem o espectro completo: da inocência à perversidade. Isto sem esquecer as “proibições de sempre”, reflectidas no olhar dos outros:

Em itálicos grafados
noutras palavras mais duras,
com mofa são observados
de viés por essas ruas.

Como hienas na pintura
de bestiários passados,
em velhas lendas perduram
os varões assinalados

O outro eixo, mais lírico, tem como objecto a família enquanto espaço da memória, num tempo tingido por fúnebre melancolia. Evoca-se tanto o pai “mirrado no caixão, antes do chumbo”, como um tio que legou a fúria de “rabiscar papéis” ou esse Alentejo em que as oliveiras são o “único argumento da existência”.
Desta vez, as “três sílabas de prata” de Sevilha rivalizam com o esplendor triste de Sodoma, “minha casinha feita de vinagre e mel”. A dicção é clássica; o quotidiano irrompe paredes meias com referências bíblicas; certas imagens ocultam mais do que revelam. Como em Ossuário:

Calor da tarde de Agosto
nesse Verão já longínquo.

Sobre a cancela um sobreiro:
sob o sobreiro, ninguém.

O resto ficou escondido
na margem de poucos versos

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no número 71 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges