Na ponta do anzol, uma bota

Em Busca do Grande Peixe – Meditação, Consciência e Criatividade
Autor: David Lynch
Título original: Catching the Big Fish: Meditation, Consciousness, and Creativity
Tradução: Mariana Spratley
Editora: Estrela Polar
N.º de páginas: 192
ISBN: 978-989-95565-3-9
Ano de publicação: 2008

Em Julho de 1973, David Lynch tinha 27 anos, uma carreira artística errática (algures entre a pintura e o cinema), uma bolsa de dez mil dólares do American Film Institute e uma primeira longa-metragem encalhada por falta de meios (Eraserhead, futura obra de culto que só completaria em 1977). Um belo dia, entrou num centro de Meditação Transcendental (MT), em Los Angeles, conheceu uma instrutora «parecida com a Doris Day» e tudo mudou. Sentado numa pequena sala, de olhos fechados, Lynch repetiu certo mantra («um pensamento-vibração-som») e «foi como se estivesse num elevador e tivessem cortado o cabo». Ou seja: «Buum! Caí em beatitude – pura beatitude.» E nunca mais quis outra coisa. Desde aquele dia, há três décadas e meia, que o realizador cumpre, sem falhas, o mesmo esquema: «Medito uma vez de manhã e, de novo, à tarde, durante cerca de vinte minutos de cada vez. Depois, vou à minha vida.» Só que com muito mais energia e capacidade criativa, diz ele.
No fundo, a MT é o método através do qual Lynch «pesca» literalmente as ideias para os seus filmes e este livro pretende ser uma explicação prática desse método. Tudo se resume a uma metáfora ictiológica, repetida vezes sem conta: «As ideias são como peixes. Se quisermos capturar peixes pequenos, podemos ficar pelas águas pouco profundas. Mas, se quisermos capturar os peixes grandes, temos que ir mais fundo.» Mais fundo, entenda-se, no «oceano de consciência pura e vibrante» que existe dentro de cada ser humano. A julgar pelos exemplos descritos, Lynch domina tão bem esta arte da introspecção que para ele se tornou fácil mergulhar até à Fossa das Marianas do seu Ser (com maiúscula) e arrancar de lá as ideias perturbantes que depois vemos, transfiguradas, no grande ecrã.
Apesar do estilo telegráfico, com irritantes tiques de guru oracular, os capítulos em que Lynch fala da aplicação da MT ao seu trabalho artístico, ou da paixão pelo cinema, ou do entusiasmo pelo vídeo digital, ainda escapam. O problema é que o autor de Mulholland Drive tenta ao mesmo tempo evangelizar o leitor, apelando à sua grande causa: a luta «contra a negatividade», em prol da «paz verdadeira na Terra». O discurso, de tão ingénuo, chega a parecer irónico. Mas não é. Atrás do Lynch perverso dos filmes, esconde-se um insuportável avatar new age.
Quando vi Em Busca do Grande Peixe na secção de Espiritualidades de uma livraria, fiquei chocado. Depois de o ler, porém, acho que é precisamente ali o seu lugar.

Avaliação: 3,5/10

[Texto publicado no número 75 da revista Ler]



Comentários

6 Responses to “Na ponta do anzol, uma bota”

  1. Maria das Mercês on Dezembro 30th, 2008 13:14

    Parabéns ao Bibliotecário pelo Prémio Arrastão! Bom 2009!

  2. ana alves on Dezembro 30th, 2008 15:56

    Encontro de Bloggers
    O FCC09 apresenta o primeiro Encontro Nacional de Bloggers de Cultura e/ou Criatividade!!
    Este evento, a realizar no dia 08 de Fevereiro de 2009, inserido nas actividades do FCC09 tem por objectivo, reunir a comunidade de criadores de blogues, relacionados com as áreas do Património, Museus, Arte, Cultura e Indústrias Criativas, e criar um espaço informal de debate, discussão e partilha de ideias e experiências.
    O registo como Blogger pode ser feito no nosso site, em Escreva-nos/Registo, e dá direito a um “Pass Blogger”, que permite a entrada gratuita em todos os dias do TEMPUS e da CONCEPTA.
    Para efectuar o registo como Blogger, deverá possuir um Blogue na área da Cultura ou Criatividade e nele introduzir uma referência ao FCC09 e um link para o nosso site (www.inovaforum.org).

  3. Bandeira on Dezembro 30th, 2008 17:45

    Também li (na diagonal e na FNAC, não comprei, hahaha) e concordo: é chocante. Mas gostei tanto disso dos cinco anos de hiato entre as filmagens de eraserhead, lembro-me de até haver escrito algo sobre o assunto e postado frames, o trabalho que tive.

    O problema é que, se apagar, ficará sempre o ectoplasma.

  4. ca:mila on Dezembro 31st, 2008 1:08

    pode piscar?

  5. Lord of Erewhon on Dezembro 31st, 2008 7:54

    É caso para dizer: «sapateiro não vás além da sandália» – o Lynch que se fique pelos filmes.

  6. Guilherme on Março 5th, 2009 23:18

    Por amor de Deus, vejam bem o que este homem diz ! Ela fala e vê as coisas de uma maneira belíssima ! 3,5 em 10, esta análise é uma vergonha !

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges