No café

As quatro velhinhas da mesa ao lado não pregaram olho toda a noite, «por causa das notícias». Ao balcão, um reformado suspira, desanimado: «E agora, quem nos tira da bancarrota? Meu deus, meu deus, nunca pensei que chegássemos a este ponto.» Mais para o canto, o grupo de homens que costuma discutir Benfica e transferências e notícias do Record, inclina-se hoje sobre um jornal económico, cor salmão, abanando a cabeça como se a sua equipa tivesse perdido na véspera com um golo em fora-de-jogo, no último minuto dos descontos. Um casalinho de estudantes universitários maldiz as agências de rating, enquanto conta os trocos para o galão + torrada + queque + abatanado.
Ferido no orgulho, o país encolhe-se e lambe as feridas, tanto as reais como as imaginárias. Por muito má que seja a situação, antecipamos sempre o pior no que ainda está para vir. Portugal, Portugal, sempre igual a ti próprio, apoteose do derrotismo.



Comentários

3 Responses to “No café”

  1. hmbf on Abril 30th, 2010 9:54

    podes crer

  2. Carlota on Abril 30th, 2010 9:57

    Uma visão real dos nossos dias.
    Carlota

  3. Art-Lover on Abril 30th, 2010 20:39

    podes crer

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges