No deserto dele

No_teu_deserto

No teu deserto
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Oficina do Livro
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-989-555-464-5
Ano de publicação: 2009

Depois de um romance histórico de recorte clássico (Equador) e de uma saga familiar falhada (Rio das Flores), Miguel Sousa Tavares decidiu, ao terceiro livro de ficção, mudar de azimute. Em vez de meio milhar de páginas, um texto breve. Em vez de personagens às dezenas, apenas duas. Em vez de amplos painéis narrativos, uma história simples.
Há um par de décadas, o autor percorreu as dunas do Sahara num jipe UMM, ao lado de Cláudia, uma rapariga 15 anos mais nova, que só conhecera pouco antes da partida. Durante as cinco semanas de viagem (mas sobretudo nos quatro primeiros dias, até Ghardaia), partilham a solidão e o silêncio, aproximam-se, atraem-se (sem nunca se envolverem) e no fim separam-se, regressando cada um à sua vida: demasiado intensa, a do jornalista-narrador; demasiado vazia, a de Cláudia. Mais tarde, ela morre, ele reencontra uma velha foto, é mordido pela serpente venenosa «a que chamamos nostalgia» e sente-se na obrigação de contar o seu breve encontro, num registo linear e intimista.
As expectativas criadas no leitor são, porém, rapidamente desfeitas. Que Miguel Sousa Tavares não é Graham Greene, já suspeitávamos. Mas era de esperar que a falta de profundidade literária fosse compensada, no mínimo, com a arte de narrar aventuras exóticas, dessas que em tempos contribuíram para a sua fama de repórter. Infelizmente, a acção do livro é tão despojada e seca quanto o Sahara. MST gasta muito mais páginas a descrever os expedientes para entrar no ferry rumo a Oran (ou para conseguir uma licença de filmagem no Ministério da Informação, em Argel), sempre com recurso a subornos e zurzindo a burocracia árabe, do que a descrever as tempestades de areia ou a beleza inóspita da pista para Tamanrasset. Sobra pouco: algumas frases dignas da melhor filosofia de cordel, sentimentalismo fácil e uma tensão erótica que nunca se resolve.
No teu deserto lembra As Pontes de Madison County sem as cenas de sexo, mas com a mesma lamechice de fazer chorar as pedras da calçada.

Avaliação: 3/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges