Nos bastidores da trilogia ‘Millennium’

A história é conhecida e já ganhou a aura dos mitos literários. Stieg Larsson, um jornalista de investigação famoso pelo seu trabalho de denúncia do racismo e das actividades da extrema-direita escandinava, começou a escrever, aos 47 anos, para se divertir nas poucas horas vagas, o seu primeiro livro de ficção. Um policial. Mas um policial que escapava aos estereótipos do género. Entusiasmado, Larsson avançou logo para outro, com as mesmas personagens centrais. E para um terceiro. Quando finalmente procurou um editor, tinha na cabeça o projecto de uma série de dez romances. Contudo, em Novembro de 2004, ainda antes da publicação do primeiro volume (Os Homens que Odeiam as Mulheres, edição portuguesa da Oceanos) e quando já tinha 200 páginas escritas do quarto livro, Larsson sucumbiu a um ataque cardíaco fulminante. O elevador do edifício em que trabalhava avariou-se e o seu coração, martirizado pelo excesso de nicotina e um colesterol altíssimo, não resistiu ao esforço de subir as escadas até ao sétimo andar.
Seguiu-se um fenómeno editorial que pede meças a O Código Da Vinci e Harry Potter. Primeiro na Escandinávia (só na Suécia venderam-se dois milhões e meio de exemplares, o que dá a extraordinária média de um livro para cada 3,5 habitantes), depois em França (onde a trilogia já ultrapassou a barreira psicológica do milhão de exemplares), por fim em todo o mundo, à medida que as traduções (em 25 línguas) começaram a conquistar tanto os consumidores habituais de best-sellers como os leitores literariamente mais exigentes. O segredo das aventuras de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander está no seu carácter viciante: quem começa a ler, não consegue parar. Na internet encontram-se relatos das insónias de pessoas que leram os livros (cada um com cerca de 500/600 páginas) de uma só vez, bem como descrições da síndrome de abstinência por que passaram os mais «agarrados», antes da publicação do volume seguinte. Em Portugal, embora tenha chegado a figurar nos tops de vendas, Os Homens que Odeiam as Mulheres ficou um pouco aquém das expectativas (tiragem de 11 mil exemplares), mas é provável que o efeito cumulativo de A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo desperte a propagação viral, através do boca-a-boca, que tem alimentado o sucesso da série em todo o lado.
Para compreender algumas das razões deste sucesso, vale a pena ler a correspondência que Stieg Larsson trocou com Eva Gedin – 22 e-mails publicados pela Actes Sud numa pequena brochura que acompanha a edição especial da trilogia completa, lançada no final de 2008. Foi Eva Gedin quem recebeu Larsson nos escritórios da Norstedts, uma espécie de Gallimard sueca, instalada num palacete gótico de Estocolmo. Estávamos no início de 2004 e ao escritor foi feita logo ali, poucos dias após os ter enviado para avaliação, uma oferta pelos três livros (o último dos quais ainda por terminar). Satisfeito, Larsson assumiu desde logo que encarava a sua produção literária como um PPR, esperando conseguir com os direitos de autor um razoável pé-de-meia para gozar na reforma. Esta humildade reflectia-se igualmente na aceitação de que os seus livros precisavam de ser trabalhados e sujeitos ao escrutínio rigoroso dos editores da Norstedts, um processo que está implícito em quase todos os e-mails agora trazidos a lume.
Na primeira mensagem, enviada às 18h10 de 28 de Abril de 2004, Larsson acusa a recepção dos contratos («sinto que posso confiar em vocês, por isso nem vou perder tempo a analisar os detalhes») e coloca questões práticas, como a de saber se Gedin pretende avançar de imediato com a caneta vermelha sobre o manuscrito incompleto do terceiro volume («faltam-me pouco mais de 40 páginas») ou se prefere esperar pela versão final, que só estaria pronta em Julho-Agosto «porque ainda não burilei os diálogos nem aprimorei os detalhes». A resposta chega um dia depois: «Prefiro ler o volume 3 na versão em bruto. A situação ideal é esta: ter a possibilidade de ler uma série no seu conjunto. Podemos discutir melhor cada um dos volumes e fazer logo as correcções gerais, o que poupa muito trabalho.»
Para descanso de Gedin, conhecedora da dificuldade em fazer cortes nas obras de autores muito ciosos de cada palavra que escrevem, Larsson confessa o seu desprendimento: «Não sou esquisito.» Repórter com experiência de edição jornalística, na revista Expo (inspiradora da Millennium, de que Blomkvist é sócio), ele faz mesmo questão de que lhe apurem a prosa: «Não tenho uma confiança cega na minha capacidade de escrita; em geral, os meus textos ficam bem melhores depois de passarem pelo crivo de um editor e estou tão habituado a intervir eu próprio como a ser corrigido.»
Um dos aspectos mais interessantes desta correspondência prende-se com a reflexão de Larsson sobre «o que quis dizer» com os seus livros. «Em diferentes níveis, a minha intenção foi ir a contra-corrente dos códigos estabelecidos para os romances policiais.» A caracterização das personagens marca logo essa diferença: Mikael Blomkvist «não tem uma úlcera, nem problemas de alcoolismo, nem angústias». Nada de ouvir árias de ópera, nada de passatempos extravagantes («estilo construir maquetas de aviões»). Os lugares-comuns foram banidos. E, já agora, inverteram-se os papéis sexuais: se Blomkvist é um pachola que não faz mal a uma mosca, a personagem feminina (Lisbeth Salander) acumula «os valores e as qualidades geralmente consideradas “masculinas”». Além de abrir o jogo sobre a génese da sua problemática heroína, «uma sociopata com tendências psicopatas», Larsson demora-se ainda na análise das personagens secundárias, «que em vários aspectos acabam por ter tanta importância como as personagens principais». E se algumas delas se impuseram naturalmente, caso de Erika Berger, sócia de Blomkvist na Millennium, outras transformaram-se em dores de cabeça: «Nos livros que aí vêm, tenho um problema com a Miriam Wu [melhor amiga de Lisbeth], não sei muito bem o que fazer dela.»
A troca de e-mails vai registando, com grandes hiatos e silêncios pelo meio, os avanços no trabalho de edição. Há envios de ficheiros, reuniões marcadas, esboços de ideias para as capas, pedidos de sinopses, a preparação da Feira de Frankfurt. A 20 de Outubro, Stieg tenta unir as últimas pontas soltas do volume 2: a autorização do pugilista Paolo Roberto (uma figura real que aparece na história); o endereço do casal Dag Svenson/Mia Bergman («ainda não decidi qual é a rua deles, tenho que verificar na zona, para que os automóveis sigam trajectos possíveis»); um telefonema de Blomkvist à irmã que precisa de ser reformulado, para colar com o livro seguinte; a inserção de um mapa verdadeiro (para substituir um provisório, tirado da internet). Oito dias depois, Larsson escreve o seu último e-mail, agradecendo os elogios de Gedin ao terceiro volume. A 9 de Novembro, acontece a fatal escalada até ao sétimo andar.
Nesta correspondência de trabalho, o que mais impressiona é a meticulosidade com que a editora trata os mínimos detalhes do projecto narrativo de Larsson. A 31 de Agosto, por exemplo, Gedin escreve: «Também discutimos o peso de Salander, que para nós deve andar à volta dos 42 quilos. Com esse peso, é-se claramente magra, mas sem parecer doentia. Ainda assim, vou confirmar. Não me importo de ser indiscreta e perguntarei às miúdas franzinas quanto é que elas pesam.» A 2 de Setembro, Larsson dá o seu aval: «Por duas ou três vezes, estive quase a perguntar o peso a raparigas no metro, mas contive-me a tempo. Podia dar mau aspecto. Mas os 42 quilos parecem-me plausíveis.»

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges