Notícias da grafomania global

Livros de mais – Ler e publicar na era da abundância
Autor: Gabriel Zaid
Título original: Los demasiados libros
Tradução: Miguel Graça Moura
Editora: Temas e Debates
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-644-048-0
Ano de publicação: 2008
Na história da humanidade, nunca se publicou tanto como agora. Desde a invenção da imprensa de caracteres móveis (séc. XV) aos actuais sistemas de print on demand, a «grafomania» conheceu uma progressão exponencial: de poucas centenas de obras diferentes no tempo de Gutenberg para mais de um milhão de títulos editados por ano. Gabriel Zaid, poeta e ensaísta mexicano, esforça-se por tornar palpável a magnitude desta abundância: um milhão de títulos novos equivale a um livro cá fora a cada 30 segundos. Ou 20 quilómetros de prateleiras cheias, a cada translação da Terra em volta do Sol. Escusado será dizer que ninguém consegue acompanhar este ritmo alucinante. Mesmo os leitores mais vorazes estão condenados a conhecer apenas uma minúscula parte de tudo o que se publica.
O que Zaid defende é que esta «experiência da finitude», em vez de nos deprimir, deve ser entendida como «o único acesso que temos à totalidade que nos chama, e nos perde, com a sua desmedida ambição totalitária». Mais importante do que o número sempre ínfimo de livros que conseguimos efectivamente ler ao longo da vida, é «o estado em que eles nos deixaram». Recorrendo a exemplos concretos e pequenas histórias, num estilo ameno, quase coloquial, Zaid explica ainda porque razão o objecto-livro sobreviveu a todos os prognósticos sobre o seu fim próximo. Além das qualidades intrínsecas (ser portátil, poder folhear-se, etc.), a principal vantagem é o baixo preço de produção, que torna economicamente viáveis tiragens muito reduzidas e permite manter uma razoável diversidade na oferta.
Optimista quanto ao funcionamento do mercado editorial, apesar das suas idiossincrasias e paradoxos, Zaid não esconde a dificuldade de conseguir, no caos de um mundo de papel em expansão, o necessário «encontro feliz» entre o leitor e o seu livro. Necessário porque é só quando esse «encontro» acontece que se cumpre o ideal socrático da cultura enquanto «conversação», iluminada pelas «constelações» de sentido que só os livros sabem e podem oferecer-nos.
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]
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