Nove esferas
Depois de ler Ponto Último e outros poemas, de John Updike (Civilização), há uma sequência de versos breves, quase haikus, que não me sai da cabeça. É esta:
NÍVEIS DE AR
Imosquitos de Primavera junto
aos meus olhos, ao meu ouvido
IInum nível acima, um pisco descansa
num ramo baixo de faia,
e andorinhas inclinadas
juntam ninhos de lama
IIIos corvos lá em cima, nos carvalhos,
deixam cair merda branca, crocitos negros
IVgaivotas: vindas do mar,
as suas asas cinzentas remando
como almas de fantasmas pairando
no Purgatório
Vum falcão de asas largas pendurado
no vento lateral
VIum Learjet (ruidoso) zumbe
como se, o trem baixado, regressasse
do seu voo local
depois de uma viagem (lucrativa?)
VIImais lá no alto, um 737
vira para leste, saindo de Logan
VIIImais perto ainda do céu,
um 747
ou uma supermosca semelhante
sai do JFK, dirigindo-se como seta
para uma capital europeia,
o seu rasto de jacto silencioso
rasgão branco de neve
com crista cruciforme
IXjá fora da visão, e sobre tudo:
as nossas naves orbitando
este planeta flutuante
e aprumados os anjos
Notável, a forma como progredimos, em ascenção lenta mas com súbitos saltos, repentinas mudanças de escala, desde a superfície terrestre ao horizonte cósmico (com anjos aprumados e tudo, à maneira das gravuras medievais). Em 32 versos, uma viagem imensa.
Gosto de pensar que há uma razão para que os mosquitos da estrofe inicial estejam simultaneamente junto aos olhos e ao ouvido. De certa forma, ele indica-nos os dois sentidos necessários para compreender o poema. Em primeiro lugar, a visão. É com ela que o poeta se apercebe dos próprios mosquitos, do pisco e das andorinhas, dos corvos, das gaivotas, do falcão, do Learjet, dos Boeing 737 e 747, das invisíveis naves em órbita e das ainda mais invisíveis revoadas de anjos. Mas, menos óbvio, o ouvido também desempenha um papel essencial. O de ouvir a melodia que atravessa os vários «níveis de ar», essa música do universo que os antigos diziam ser a música das esferas.
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