Números

Em Portugal publica-se muito, já se sabe, sobretudo se compararmos o número de títulos editados com os nossos baixíssimos índices de leitura. No ano que está quase a terminar, porém, tudo indica que a avalanche editorial não vai superar os valores de 2006. Segundo dados da APEL a que tive acesso, e que se baseiam nos registos de ISBN, até final de Novembro apareceram 13976 novos títulos no nosso país, contra 14034 no período homólogo do ano passado. Isto é, não houve crescimento nem retracção. Ou, se quiserem, houve um decréscimo residual (0.004%) que ainda pode ser compensado pelo mês de Dezembro.

Quanto ao volume de vendas  os números que mais interessam e que melhor permitiriam entender o funcionamento e evolução do mercado do livro no nosso país  continua o buraco negro do costume. Não há estatísticas, não há termos de comparação, não há ferramentas de análise. E enquanto continuarmos assim, é difícil olhar para este sector com outra atitude que não seja: 1) de dúvida; 2) de desconfiança; 3) de dúvida e de desconfiança.



Comentários

6 Responses to “Números”

  1. Luís Carlos Silva on Dezembro 12th, 2007 23:22

    Mesmo assim ainda andamos muito longe dos 121 mil títulos publicados (em 2006) só em Inglaterra, como nos diz George Steiner n’O Silêncio dos Livros. Isto sim é um número quase inconcebível.

  2. Paulo Ferreira on Dezembro 13th, 2007 1:16

    Já que falamos de números (num sector onde não há números, tudo é um mistério), é sempre interessante verificar (mesmo que de forma empírica) de que forma esta profusão editorial se relaciona com o número de títulos reservados a cada um dos editores. Aí conseguimos perceber bem um dos maiores paradoxos do sector. Uma oferta, do ponto de vista de agentes (editores), absolutamente atomizada face a um retalho que está cada vez mais concentrado, no qual uma tríade representa cerca de 80% do mercado. Assim, não admira que a analogia do iogurte esteja cada vez mais em voga, i.e., o livro tem o prazo de validade deste produto lácteo.

    Depois é ainda interessante verificar que, por questões contabilistico-financeiras, não é, de facto, possível ao editor parar de produzir. E eis que chega outra analogia: a do ciclista – tem de continuar a pedalar, pois se parar… cai.

  3. João on Dezembro 13th, 2007 2:04

    Deprimente é saber que numa vida não é possível ler todos os livros publicados num ano.

    😉

  4. Certamente! Continuando nos números: 13.976 on Dezembro 13th, 2007 16:03

    […] ferramentas de análise”, recorda muito a propósito o José Mário Silva no fresquíssimo Bibliotecário de Babel. “E enquanto continuarmos assim, é difícil olhar para este sector com outra atitude que […]

  5. CeeJay on Dezembro 13th, 2007 17:50

    Ainda os números e mais…

    Não há números de vendas porque simplesmente não é possível, porque nunca se sabe muito bem o que está vendido. Há o problema das consignações, das devoluções, e do pagamento a perder de vista. Deste raciocínio se excluem, é claro, os best-sellers. A maioria das edições são de 1.000 exemplares ou menos – sendo que agora o mais indicado até é o “print-on-demand” – são colocadas nas livrarias à consignação, isto é, sem facturação nem previsão da mesma (já nem falo do recebimento efectivo).
    Quem suporta o cash-flow do sector são os editores, porque as livrarias vendem a pronto, portanto não têm problemas de recebimentos; às gráficas tem que se pagar quando muito a 90 dias; o papel idem. Por isso não é possível parar de editar; e esperar ter a sorte de algum livro ajudar a sair do buraco.
    Nunca concordei com o facto de a associação mais representativa do sector ser de “editores e livreiros” porque me parece que, ao juntá-los, não permite um diálogo construtivo para renovação do sector uma vez que quem vende acaba sempre por ter a faca e o queijo na mão; isto é, quem dita as regras são normalmente os livreiros. Nos descontos, nos prazos de devolução, no prazo de pagamento, nas consignações… diz-se: são as regras do mercado. Enquanto assim for é muito complicado principalmente para as editoras de menor dimensão. Não é possível conciliar muitos dos interesses de uns e de outros.
    O melhor de tudo isto é que há solução: passar a funcionar como todos os outros sectores, sem regras pré-definidas e normativas para todos os agentes que entram no mercado, or else…

  6. Nuno Seabra Lopes on Dezembro 14th, 2007 9:54

    Não julgo que se possa colocar bem nessa perspectiva, pois outros mercados têm regras de consignação e processos de devolução bem complexos – apesar de optarem por formatos estruturados e acordos em relação às devoluções.
    O caso da Gfk é sinal que é possível, quando as contas são feitas à boca da caixa, ou no caso da Byblos, onde o livestream (com troca EDI) permite acompanhar diariamente (depois de hora a hora) a venda real dos livros.
    Em relação a valores globais, é óbvio que a multiplicidade de canais (e até de mercados) não permite obter um valor definitivo, pelo menos enquanto não houver controlo interno (e vontade de divulgar) por parte das editoras.
    A questão do PoD não é parte do problema, pois já se fazem muitas tiragem após prospecção (por mais errados que por vezes até os resultados sejam), e futuramente toda a gente espera que processos de pré-venda possam igualmente funcionar.

    Se em Portugal não há números (assim como, e somente, na Croácia) é porque não se quer, só assim se justifica este carácter de excepção.
    Mas atenção, porque há números, se não houvesse números não havia investimento exterior – ninguém investe sem ter valores de mercado, taxas de retorno, etc, etc, etc.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges