O abismo vazio

Rosa Vermelha em Quarto Escuro
Autor: Pedro Paixão
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 257
ISBN: 978-972-25-1715-7
Ano de publicação: 2008
Recém-chegado à Bertrand (após passagens pela Cotovia, Oficina do Livro, PrimeBooks e Quetzal), Pedro Paixão lançou o seu mais recente romance quase em simultâneo com a reedição do livro de estreia (A Noiva Judia, 1992). Esta coincidência, ao unir os dois extremos de uma obra com mais de 20 títulos, permite confirmar o que obras como Boa Noite (1993), Muito, meu amor (1996) ou PortoKyoto (2001) já prenunciavam: Paixão é excelente quando se dedica aos contos curtos mas torna-se um escritor sofrível sempre que envereda por narrativas mais longas.
Volta a ser o caso de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, romance palavroso no qual o leitor vai da exasperação ao aborrecimento e vice-versa. A história, se é que a podemos designar assim, está cheia de “fantasmas” que se alucinam uns aos outros e de solidões intransponíveis. Tudo girando à volta de uma nova-iorquina trancada na sua angústia, a quem acontecem coisas: a paixão mal resolvida por uma iraniana de “olhos cor de chuva”, tentativa de suicídio, um caso com o homem que a salvou in extremis, a morte do pai ou os sobressaltos que a empurram de Nova Iorque para Sintra, de Sintra para os Açores e dos Açores novamente para Nova Iorque, onde por fim uma gravidez redentora parece abrir portas ao improvável recomeço.
O resto é tão vago que escapa a qualquer resumo. A protagonista pensa muito e os seus pensamentos são o corpo do romance. O que acontece chega-nos através de um discurso analítico, capaz de dissecar, até ao osso, tudo e mais alguma coisa: uma paisagem ou as leis do amor, “o problema da escala” ou a metafísica do “destino”. E assim, nesta imponderabilidade, se vai dissolvendo um débil fio narrativo que só de vez em quando faz, quase por favor, uma ou outra concessão à verosimilhança.
Pelo meio, há leitmotivs — o primado da beleza, ecos do “romance infinito” de Proust — e alguns encontros com personagens que parecem saídas de um sonho: o traficante de ópio com uma quinta edénica; o professor de português que é poeta alcoólico depois das sete da tarde (e lhe revela Ruy Belo, Cinatti, Herberto Helder); ou o escultor judeu que escapou, cheio de culpa, ao horror do Holocausto. No entanto, até estes pontos de fuga acabam por ser devorados pela vertigem verbal da americana sem nome, que tudo absorve e sufoca num ímpeto solipsista.
A escrita de Paixão não mudou: frases curtas, fluidas, sempre à beira do aforismo ou do paradoxo. Mas se este estilo aéreo resulta muito bem em textos de cinco parágrafos, está longe de aguentar a travessia de duas centenas e meia de páginas. Seria necessário outro fôlego, outro rasgo, outra coesão. Em vez disso, na ânsia de fixar epifanias e retratos dos abismos existenciais, o texto dissipa-se numa verborreia filosofante, que tanto se coloca em bicos dos pés (alusões a Joyce e a Balthus) como se aproxima de uma espiritualidade new age, com anjos decididos a salvar a “alma” de burgueses entediados. O tédio, que “está por debaixo de tudo, antes de tudo, à espera de tudo”, é justamente o mínimo denominador comum deste livro atravessado por ideias, pessoas e palavras que “aparecem para logo desaparecerem” da nossa memória, devoradas pelo mais absoluto vazio.
Avaliação: 4/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Comentários
6 Responses to “O abismo vazio”
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Cheguei aqui pela mão de Alessandro Baricco, um autor que muito aprecio.
“Next” time voltarei com pézinhos de “Seda”, para o caso da “City” estar a ouvir o “Noventos” a tocar piano.
Os ossos do oficio de um critico: ler livros como este último do Pedro Paixão. Não lhe gabo a sorte, amigo.
Há coisas piores. Não me queixo
Caro José Mário Silva,
Pedro Paixão estará dia 28 de Maio, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal de Algés, no âmbito do Café com Letras. Conversa moderada por Carlos Vaz Marques e que, espero - depois de ler este post -, seja caracterizada por parágrafos curtos. Apareça!
[…] O abismo vazio […]
Caro José,
compreendo muito bem a tua critica e poder-me-á ajudar no próximo volume já que este é o primeiro de uma série de três.
quanto ao espírito do livro acho que o captaste muito bem com o titulo da tua critica. O abismo vazio é onde de facto estamos, ainda não reparas-te? E o tédio por debaixo de tudo (Heidegger). E o indizível (Wittgenstein).
E de facto a acção é completamente acessória, como em Beckett, Joyce e Proust. O que ela gosta é de pensar e foder. Como eu.
abraço
pedro
ps já descobri porque não consigo escrever o nome do S.B. correctamente. Porque estudei quatro anos num colégio que se chamava Thomas Becket - só com um T. deve ser de um traumatismo na memória.