O almoço agradável
Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.
Comentários
4 Responses to “O almoço agradável”
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Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista.
Mas qual foi o fogo-de-vista?! O homem disse o que queria e eles, pelos vistos, deram-lhe. Não percebo porque se anda a fazer disto um caso.
E já agora: qual o problema em ele exigir um determinado tratamento (especial)? O homem é especial, logo… Essa coisa de que “somos todos iguais” tem mesmo muito que se lhe diga (e não estou a referir-me, claro está, à Declaração Universal dos Direitos do Homem).
Aquilo que ALA realmente pediu foi que os seus livros tivessem edições cuidadas como vinha sendo feito na DQ por Tereza Coelho. Deste ponto de vista o mimo é justíssimo e advém duma visão profissional da relação escritor-editor, que só importa aplaudir. Esse é um patamar a que a larga maioria dos escritores portugueses, Saramago incluído, não entende nem exige. E no entanto seria importante atender a esses quesitos: nas editoras haver quem conheça tudo sobre um autor, e não haver apenas uma sequência indiscriminada de livros a produzir, em geral a passo acelerado e de acordo com calendários artificiais.
Providenciou?
De “provide”, não?
Não, caro Albino. Providenciou: terceira pessoa do singular do verbo providenciar, conjugado no pretérito perfeito. Verbo providenciar: o mesmo que prover.