O almoço agradável

Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.



Comentários

4 Responses to “O almoço agradável”

  1. Ana Cristina Leonardo on Janeiro 25th, 2008 0:12

    Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista.

    Mas qual foi o fogo-de-vista?! O homem disse o que queria e eles, pelos vistos, deram-lhe. Não percebo porque se anda a fazer disto um caso.
    E já agora: qual o problema em ele exigir um determinado tratamento (especial)? O homem é especial, logo… Essa coisa de que “somos todos iguais” tem mesmo muito que se lhe diga (e não estou a referir-me, claro está, à Declaração Universal dos Direitos do Homem).

  2. Vasco Rosa on Janeiro 25th, 2008 16:12

    Aquilo que ALA realmente pediu foi que os seus livros tivessem edições cuidadas como vinha sendo feito na DQ por Tereza Coelho. Deste ponto de vista o mimo é justíssimo e advém duma visão profissional da relação escritor-editor, que só importa aplaudir. Esse é um patamar a que a larga maioria dos escritores portugueses, Saramago incluído, não entende nem exige. E no entanto seria importante atender a esses quesitos: nas editoras haver quem conheça tudo sobre um autor, e não haver apenas uma sequência indiscriminada de livros a produzir, em geral a passo acelerado e de acordo com calendários artificiais.

  3. albino matos on Janeiro 25th, 2008 18:59

    Providenciou?
    De “provide”, não?

  4. José Mário Silva on Janeiro 27th, 2008 23:01

    Não, caro Albino. Providenciou: terceira pessoa do singular do verbo providenciar, conjugado no pretérito perfeito. Verbo providenciar: o mesmo que prover.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges