O arco-íris duplo

Um dos vídeos mais vistos no YouTube em 2010 foi este:

E quem pensar que há exagero na euforia/comoção deste homem diante do espectáculo da natureza, é porque nunca viu (como eu já vi) um arco-íris duplo «all the way across the sky».
Também em 2010, fiquei fascinado com outro arco-íris duplo, provavelmente o mais bem descrito da poesia portuguesa (a bem dizer, não conheço outro). Está nas páginas 46 e 47 do Curso Intensivo de Jardinagem, de Margarida Ferra, publicado na &Etc (o negrito é meu):

ALGÉS

Para a Jussara Rowland

Não chegámos a ver a tempestade
e quase não vimos a feira de
coisas velhas — toldaram-se
as coisas com os preparativos
do fim. Rápidas, as mãos
dos comerciantes a apanhar
os objectos que regressavam
aos sacos, aos carros, aos intervalos.

Não tenho a certeza se
foram as pessoas que começaram
a correr quando caíram as primeiras
gotas, pesadas e distantes, se
foi o vento a crescer em espiral
e por isso os movimentos
me pareceram mais acelerados.
Ou se
durante a nossa fuga, sob os meus olhos,
passaram ainda mais coisas velhas, em trânsito
para dentro dos sacos,
para dentro dos carros.

Foi já no automóvel
que vimos as gaivotas fugidias,
desarrumadas entre os prédios,
brilhantes também,
sobre elas o mesmo sol.
Logo a seguir, as cores todas,
os dois arco-íris. Um dentro do outro, voltas
perfeitas, mais nítida a ilusão de dentro
do que a ténue sugestão de fora.

Deixámos o rio para trás, cinzento,
a nuvem carregada colada ao Tejo e, antes
do azul celeste de uma bonança superior,
o sol na nuvem branca, néon horizontal.

À medida que regressávamos à cidade,
foi desaparecendo tudo o que parecia ser.



Comentários

One Response to “O arco-íris duplo”

  1. Arco-íris duplo « Fragmagens on Janeiro 7th, 2011 21:22

    […] dias, no Bibliotecário de Babel, o fenómeno veio à baila. Tudo porque um dos vídeos mais vistos no YouTube em 2010 mostrava um arco-íris duplo e o relato […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges