O azar de Vasco Pulido Valente
Vasco Pulido Valente, é sabido, tem há muito tempo um problema com Portugal e com todos os portugueses que não se chamem Vasco Pulido Valente. À excepção dele próprio, tudo neste país é mau ou péssimo, trágico ou apocalíptico, um desastre que ele nos anuncia três vezes por semana, em crónicas infalivelmente pessimistas e biliares. Acontece que a realidade às vezes troca as voltas ao informadíssimo Vasco Pulido Valente, provando que ele talvez não seja tão informado quanto julga.
Vejamos a prosa que assina hoje na última página do Público. A ideia da crónica é enumerar aqueles que foram os seus «livros do ano» em 2009. Até aqui nada de mal. Qualquer leitor gosta de descobrir que livros mereceram fazer companhia aos romances de Clara Pinto Correia na mesa de cabeceira de VPV. E foram três: Wolf Hall, de Hilary Mantel, Prémio Booker (primeira escolha); A History of Christianity: The First Three Thousand Years, de Darmaid MacCulloch; e Alone in Berlin, de Hans Fallada.
O parágrafo final é Vasco Pulido Valente em estado puro: «Claro que Portugal não se interessará por Fallada, MacCulloch ou Mantel. A nossa crise não é só política, económica e financeira.» O destaque, que ignoro se é da sua responsabilidade ou do Público, vai ainda mais longe: «Claro que Portugal não se interessará pelos livros que recomendo aqui. Pior para ele».
Acontece que nem só Vasco Pulido Valente lê livros estrangeiros neste nosso rectângulo. Alguns editores também o fazem. Quanto a Fallada e MacCulloch, não sei se alguém está a pensar publicá-los por cá. Mas o livro de Mantel vai ser editado na próxima Primavera (Março ou Abril) pela Civilização, como noticiei no Expresso em Outubro, na semana em que Wolf Hall ganhou o Booker. E nem se trata de uma publicação a reboque do prémio. Como Simona Catabiani, directora editorial da Civilização, explicava nesse artigo, os direitos do livro foram comprados ainda antes do anúncio da longlist.
Comentários
12 Responses to “O azar de Vasco Pulido Valente”
- Blogue Bizâncio em 10 de Fevereiro de 2012
- Ferreira Gullar ganha Prémio Moacyr Scliar em 9 de Fevereiro de 2012
- Logo à tarde em 9 de Fevereiro de 2012
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“um problema com Portugal e com todos os portugueses que não se chamem Vasco Pulido Valente”
mas acontece que o senhor que assina com esse nome, também não se chama Vasco Pulido Valente.
Pode sempre acontecer que «Portugal» signifique «os leitores portugueses», e não «os editores portugueses». (Mas depois a seguir vêm eles e fazem do livro um tremendo sucesso, à sua escala, meia dúzia de milhares de exemplares vendidos, e lá se enganou VPV outra vez.)
Se Portugal é um atraso de vida, é também porque existem casos patológicos de exibição diária ou semanal. Estaria tudo bem, se VPV não fosse pago (imagino que muito bem) para escrever o que escreve. O desprezo por tudo o que não seja ele próprio deve começar, afinal, por ele próprio. No fundo, sabe que num país “a sério” não lhe aturariam tantos caprichos, insultos e veleidades, todos os dias. Não há paciência.
Caro Zé Mário,
Está aqui na prateleira a olhar para mim:
Pequeno homem, grande homem e volta tudo ao contrário : romance / Hans Fallada ; trad. Campos Lima
AUTOR(ES): Fallada, Hans, pseud.; Lima, João Evangelista Campos, 1887-1956, trad.
PUBLICAÇÃO: [S.l. : s.n.], 1943 ( Lisboa : — Soc. Nacional de Tipografia)
DESCR. FÍSICA: 371 p. ; 19 cm
COLECÇÃO: Os grandes humoristas do nosso tempo
Já agora e como nota, uma vez que não aparece no registo da Porbase acima, é mais um fruto dessa grande editora que dava pelo nome “Edições O Século”
E ainda há a presunção, tão provinciana e afinal tão anacrónica num tempo de nichos e de interesses tão especializados, que este ou aquele livro que VPV acabou de ler, e a que, entre nós, só mesmo ele com a sua perspicácia deu o real valor, é de leitura indispensável a quem não quiser ser ignorante.
Há muitos mundos. Há muitos livros, em inglês, português ou noutras línguas de que cada um pode tirar proveito segundo a sua inclinação. Ninguém se deve sentir obrigado a ler nada, pois o enfado é o caminho mais curto para matar o gosto pela leitura.
(Quanto aos livros do Booker, premiados ou quase, li o Summertime do Coetzee – livro empolgante e ao mesmo tempo deliciosamente embaraçoso pelo modo como o autor se dá a ver – e tenho outro em lista de espera de um autor que sigo há anos, William Trevor. Não tenciono ler Hilary Mantel porque, tirando os clássicos, evito, por falta de tempo, romances com mais de 400 páginas. Talvez eu seja um caso lastimoso de um leitor que voluntariamente se priva da luz. Pelo menos não tenho a presunção de dizer que quem não lê Coetzee ou outros autores da minha predilecção não lê nada de jeito.)
Sim, o afecto dele pelas narrativas da Clara Pinto Correia é um insondável mistério, creio que é na banda desenhada do Winnie the Pooh que o dizem assim: mistério misterioso.
Para começar com uma frase que arrepiaria – e bem – o Vasco, tem feito muito sucesso lá fora um “site” chamado I just made love – Luís Pacheco traduziria a coisa por “Ainda agora dei uma.” A minha modesta proposta é que o Bibliotecário lançasse um “I have just read a poem ” , com mapas das cidades , vilas e aldeias de Portugal, em que as pessoas sinalizassem o local e hora onde leram e o quê. Desfazer-se-iam assim alguns mitos sobre os hábitos literários dos portugueses (criar-se-iam também outros novos). Os grandes leitores portugueses são ruminantes ; raramente falam do que andam a ler e tem horror a fazer alarde. É uma coisa que só nos fica bem, mas às vezes é preciso fazer o contrário. Dou, renitente, , o exemplo: hoje, por volta da uma num quiosque do Príncipe Real li um poema de Ted Hughes, ‘Fulbright Scholars’.
Olá. Não li o texto original, mas li excertos aqui
http://daliteratura.blogspot.com/2009/12/escolhas-de-vasco-pulido-valente.html
e nada me choca. Parece até haver um qualquer desfasamento entre o comentário irado, azedo, de JMS e o fragmento que Eduardo Pitta publicou.
E sim, aprecio aqueles que, como VPV, dizem que o rei vai nu, mesmo que vá ricamente vestido, com indumentária que só os muito inteligentes conseguem ver. Afinal, ou as “crónicas infalivelmente pessimistas e biliares” são um espelho, mesmo que deformado, do país que temos, ou vivemos num mar de rosas. Cito de memória uma personagem de Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto (que falta faz a troca de ideias neste país!), “Vai com calma, pá!”
[...] tendo meios para concretizar a «modesta proposta» feita pelo leitor V.Melo nesta caixa de comentários, fico à espera que alguém a concretize. Prometo [...]
Com o tempo e a idade a avançar, vamos começando a perceber certas coisas.
1) Já precisamos de óculos para desenvolver uma das nossas actividades favoritas: a leitura.
2) Por mais que leiamos, a dimensão da nossa ignorância será sempre enorme.
3) Quanto mais lemos, mais esquecemos. Mas o travo amargo que isso nos deixa é cada vez mais doce.
Por isso mesmo, não me preocupa nada o que os outros lêem. Ou melhor, gostava que se lesse “bem”, com “qualidade”, mas não fico angustiado por não andar a ler o livro mais “trendy” ou “fashion” ou o mais importante.
Na Casa Fernando Pessoa, Francisco José Viegas confessou que não tinha lido o “Ulisses”. Seguiu-se um punhado de confissões no mesmo sentido. E Proust também foi mencionado.
É tanta a coisa importante que não li. A angústia está a dissipar-se. Fico apenas melancólico.
Not a poem, mas umas páginas dos Cus de Judas, ontem à noite, fechado no carro cercado de prédios, enquando consumia o atraso de alguém para jantar.
O problema do VPV e outro. É perceber como é que um povo tão perdido e ignorante dá um papel tão contínuo de opinador e comentador de referência a VPV.
Para o senhor esta questão deve ser um daqueles erros internos de computação que arruinaria qualquer robot: Ou os portugueses são todos uns tonhos e o VPV é o comentador que merecem, também tonho; ou o VPV tem algum valor – que ele acredita que sim – e portanto quem o colocou onde ele está – os portugueses – tem também algum valor.
Difícil resolver esta questão de lógica.
Pessoalmente acho que os portugueses são bem superiores ao comentador que obtiveram. Assina crónicas autistas, egomaníacas, manientas.
Terá contraído na sua passagem por Oxbridge uma egotite crónica inultrapassável? Parece ser uma doença frequente de quem por lá passa. O ambiente húmido e escuro daquelas colleges dá nisto…