O balão vermelho

E à tarde lá se ouviram, na Casa da Achada, as prosas vindas de quatro pontos do mundo. Realidades terríveis, as retratadas nos textos de Amiens e Kinshasa (muita violência, muitos abusos, muito negrume). Mais solares os contributos portugueses. Pela minha parte, fiquei contente por ouvir o meu texto dito (e que bem dito) pelo Diogo Dória, grande actor, além de cantado em parte (e que bem cantado) pela maravilhosa dupla Pedro e Diana.
Para quem não foi à Mouraria, deixo aqui o texto:

UM BALÃO VERMELHO, SEM FITA-COLA

Difícil é começar, já se sabe. E nós estamos sentados em semicírculo: o Diogo, tuba às fatias na t-shirt; a Isabel das tranças tão perfeitinhas; a Érica de óculos azuis na cara redonda; o Mário deitado no chão, com os pés no ar; a Daniela das pulseiras rosa shock no braço esquerdo; o Willian, com n, assim chamado porque o pai gosta dos «actores dos filmes» (a mãe preferia Felipe, depois resignou-se). E agora? Difícil é começar, ai pois é, pôr uma palavra a seguir à outra, mas entretanto já começámos, os dois mais velhos assumem que são maus leitores, não gosto, não gostamos, fartam-se depressa, o Willian e o Diogo, dez minutos, uma hora, dois capítulos, «aquilo torna-se chato», «estar atento dá-me sono», os mais pequenos encolhem os ombros, com eles não é bem assim, mas deixemos isso para trás. Deixemos isso para trás porque de repente, agora, há histórias a nascer no centro do semicírculo, do recreio cada criança prometeu trazer uma na cabeça, depois dos saltos no pátio de cimento, depois das correrias por baixo dos telhados de zinco, e elas aí estão, as histórias, atropelando-se. A do Mário cabe inteira numa frase: um menino tem medo do escuro, na casa há duas camas, é na da mãe que a escuridão menos assusta. Chegada a sua vez, a Daniela esquece-se do que ia contar, depois já se lembra, mas quando vai contar varre-se tudo de novo, o que não se varre é a memória de umas férias que passou na Alemanha com a irmã mais velha («ela tem 24 anos»), duas semanas em Hamburgo, tal como a Isabel não esquece o dia em que o pai chegou de Espanha, onde estava a trabalhar, e trazia roupas para ela, sapatos para ela, tantas coisas e ainda pastilhas elásticas com sabor a maçã. A história do Willian parece um sonho: há um menino que pega num balão e tenta enchê-lo, sopra, sopra, sopra, mas não consegue porque o balão está furado, até que ele encontra o furo e tapa-o com fita-cola, volta a soprar e o balão enche-se, é um balão vermelho, muito cheio de ar e o menino brinca com ele como se fosse uma bola de futebol. Na história do Diogo há um peixe que tem medo do mar, coisa complicada porque é no mar que ele vive, imaginem o que seria termos medo do oxigénio que respiramos, então um dia uns mergulhadores apanham-no («como no Nemo», lembra a Érica), levam-no e deitam-no ao rio, por ser demasiado pequeno, e ele fica no rio porque da água doce não tem medo (talvez o problema estivesse no grau de salinidade, penso eu), o peixe vê então um menino na margem a construir uma casa com pedras e folhas, dá um salto na água para chamar a atenção e à terceira o menino ouve, vira-se e pergunta-lhe «de onde vieste?», «do mar» responde o peixe, o menino arranja-lhe um aquário na casa feita de pedras e folhas, o peixe aceita ficar com o menino mas diz-lhe: «não expliques é aos teus pais que eu sei falar». Entretanto as cadeiras ficaram vazias, cresce o barulho lá fora, a Érica atrapalhou-se com a história de um menino que gostava de ficar sozinho, a Isabel ri-se muito, a Daniela fala da Shakira e o Mário levantou-se e tem na boca, vindo não sei de onde, um balão, um balão vermelho, um balão vermelho verdadeiro, um balão vermelho verdadeiro que se enche de ar e não está furado, um balão vermelho verdadeiro que se enche de ar e não precisa de fita-cola, um balão vermelho verdadeiro que incha como uma palavra demasiado grande para a nossa boca, uma palavra daquelas que é preciso ir ver ao dicionário e de repente o ar sai todo de uma vez, um som esquisito, um pffffffffff, o som de uma coisa que se esvazia, como as histórias quando já não conseguem ir mais longe ou os textos que se perdem no ar sem ponto final



Comentários

One Response to “O balão vermelho”

  1. MM on Maio 31st, 2010 16:16

    tão, mas tão bonita, esta estória destes meninos.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges