O caderno perdido de Nikola Tesla (início)
1. Zagreb, 10 de Julho de 2006
Três da tarde. Esplanada do Mala Kavana. Uma chávena de café (vestígios acastanhados de açúcar no fundo); copo com a linha de água a menos de meio; espirais de tinta azul no guardanapo de papel; o romance de Roberto Bolaño pousado na diagonal, com a capa para baixo. Cheguei meia hora mais cedo. Chego sempre meia hora mais cedo. Não gosto que esperem por mim. Prefiro ser eu a esperar. Instalo-me, preparo-me, faço o reconhecimento do terreno. Evito surpresas.
A luz que desaba sobre a praça torna quase branco o céu azul. A praça é tão comprida como o nome que lhe deram: Trg Bana Josipa Jelačića. As pessoas atravessam-na em passo de corrida, na diagonal, fugindo do calor. Só aquela mulher que empurra um carrinho de bebé, tapado por uma fralda, é que não. Demora-se, chega a parar junto à estátua do cavaleiro de sabre curvo apontado ao horizonte, como se soubesse que eu a observo. E eu observo-a, de facto, enquanto finjo escrever qualquer coisa (espirais de tinta azul no guardanapo de papel). O que nela me atrai são as mãos. A forma como agarra nos punhos do carrinho. A forma como limpa delicadamente, com um lenço de cor malva, o suor da testa. Aquelas mãos são iguais às de Irina. As mãos de Irina espalmadas no meu peito, a oscilação das suas ancas na penumbra do quarto, a minha língua na pele dela (saliva, hieróglifos), os meus dentes ao de leve nos mamilos duros, as mãos de Irina (uma em cada boca, gemidos). Não, as mãos de Irina eram outra coisa, nada a ver com esta mãe recente que agora acelera por fim, desaparecendo na esquina da rua Radićeva.
Os pombos. Reparo nos pombos, no seu voo circular um pouco acima dos telhados. Há muitos anos, um amigo disse-me que os pombos são sempre os mesmos em qualquer parte. Os pombos de Zagreb são os pombos de Lisboa ou de Paris, são os pombos da cidade de onde vieste. Eles seguem-te para todo o lado, como a Lua solitária sobre a paisagem (sempre a mesma Lua), quando atravessas um país de lés a lés durante a noite. O meu amigo gostava de dizer estas coisas pelo simples gozo do paradoxo, ou da incongruência. Talvez por isso já não seja meu amigo.
Três e meia. Peço outro café e outro copo de água, com gelo. No meu relógio, o ponteiro dos segundos arrasta-se. O guardanapo de papel, completamente desdobrado, parece o mapa de um país à mercê de um castigo bíblico (mil furacões simultâneos). Ao fundo da praça, vindo da rua Jurišićeva, alguém acena na minha direcção. Um chapéu de palha com uma fita púrpura. Reconheço o sinal. É ele, finalmente. Traz consigo uma pasta de couro, pesada, com fechos brilhantes. Aperta-a com força, muita força. Como se temesse um roubo por esticão. Como se lá dentro estivesse um tesouro mais valioso do que as próprias Tábuas da Lei.
[in revista Egoísta, n.º 39, Junho de 2009]
Comentários
3 Responses to “O caderno perdido de Nikola Tesla (início)”
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Promete ser bom Zé Mário, mas (talvez) um reparo. Provavelmente deverias ter escrito “Mala Kafana” em vez de “Mala Kavana” (talvez tenha sido um typo). Significa, já agora (e provavelmente sabes) “Café Pequeno” (no sentido de caé como estabelecimento comercial).
Outra nota. A palavra “Trg” significa já “praça”, mais uma vez, é algo que provavelmente já saberás.
Obrigado pelo comentário.

Mala Kavana é mesmo o nome de um café que existe na Trg Bana Josipa Jelačića. E sim, sei que Trg é praça, mas nem por isso me parece que deva sair do topónimo. Seria o mesmo que dizer Praça do Comércio sem o Praça.
Abraço,
ZM
engraçado, fui agora ver e o nome é o mesmo que dei: pequeno café/café pequeno. talvez seja uma variação croata do servo-croata que trocou o “f” original por “v”.
eu percebo o teu ponto de vista sobre escrever o “trg” e até acho que fica bem na tua frase. já se escrevesses “a praça trg Bana Josipa Jelačića” me pareceria (a mim, atenção) menos bem. seria o mesmo que escrever “a praça times square” ou “a praça piazza navona” ou até “a praça Praça do Comércio”. Mas isto é apenas a minha opinião.
estou curioso quanto ao resto da história, confesso