O fim das ilusões

capa 'Mauricio'

Mauricio ou as Eleições Sentimentais
Autor: Eduardo Mendoza
Título original: Mauricio o las elecciones primarias
Tradução: Helena Pitta
Editora: ASA
N.º de páginas: 304
ISBN: 978-989-23-0023-8
Ano de publicação: 2008

Eduardo Mendoza, que participou este ano nas Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim), regressa com Mauricio ou as Eleições Sentimentais ao romance e a Barcelona, cenário e objecto de quase todos os seus livros. Desta vez, a época abordada pelo escritor, conhecido pelo afinco com que observa as metamorfoses sociais, não é o início do século XX — como em A Verdade sobre o Caso Savolta ou A Cidade dos Prodígios (narrativa que espelha a evolução da capital catalã entre a exposição universal de 1888 e a de 1929) — mas sim o período que se seguiu à «transição democrática». As balizas cronológicas estão de resto bem marcadas: a história arranca pouco antes das segundas eleições autonómicas da Catalunha (Abril de 1984) e termina com o anúncio, dois anos e meio mais tarde, de que Barcelona acolheria os Jogos Olímpicos de 1992.
Uma década após a morte de Franco, a democracia “ainda usa fraldas”, o país é um “castelo de areia” sempre em risco de vir abaixo e os cidadãos começam aos poucos a voltar às suas vidas, “uns por cansaço, outros por desencanto e todos, definitivamente, por egoísmo”. É neste contexto de refluxo cívico que Mendoza coloca a sua personagem principal: Mauricio Greis, um dentista cinzentão, leitor de Goethe, regressado a Barcelona para exercer numa clínica privada. O seu tédio é posto em causa pelo convite para fazer parte das listas do PSOE às já referidas eleições (em que os socialistas perderam a Generalitat, como sempre, para Jordi Pujol). Vítima da má-consciência burguesa, Mauricio aceita entrar na vertigem da campanha, com uma exaltação rapidamente anulada pela tristeza de descobrir como as coisas de facto se passam; ou seja, pela consciência de que entre a ideologia e a praxis política há um desfasamento que destrói todas as ilusões de mudança radical da sociedade.
Paralelamente, o dentista anódino envolve-se num triângulo amoroso com duas mulheres que pertencem a “mundos irreconciliáveis”: a advogada Clotilde, insegura nas suas relações, tanto profissionais como afectivas; e Porritos, cantora de rancheras, desempregada, pobre, carente, que se descobre com Sida e lança uma sombra de morte sobre grande parte do romance. Nestas personagens que colidem de frente com a realidade, Mendoza consegue fixar de forma muito nítida o desencanto de uma geração confrontada com a ideia de que “tantas energias e tanto entusiasmo não serviram para nada”.
A escrita é veloz, transparente, fluida, de uma precisão e desenvoltura narrativa sem mácula. O humor tem conta, peso e medida. Aos diálogos não falta a cadência certa. As trezentas páginas lêem-se num sopro. Ainda assim, há um excesso de linhas narrativas secundárias (dissipam a força da história central), bem como personagens tão periféricas e difusas que mais valia não terem sido convocadas.
Uma última palavra para a tradução de Helena Pitta: excelente.

Avaliação: 7/10

[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

9 Responses to “O fim das ilusões”

  1. Bibliotecário de Babel – Eduardo Mendoza: “Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção” on Maio 6th, 2008 12:25

    […] na edição deste ano das Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde lançou o romance Mauricio ou as Eleições Sentimentais (ASA). Nesta entrevista, fala do livro, das suas circunstâncias e da sequela que está a escrever […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges