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O fogo por vários dias

mae-do-fogo

Mãe-do-fogo
Autores: João Miguel Fernandes Jorge (texto) e João Cruz Rosa (desenhos)
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-989-641-134-3
Ano de publicação: 2009

Nestes 25 novos poemas, completados por uma série de desenhos de João Cruz Rosa (a tinta-da-china sobre papel feito à mão), João Miguel Fernandes Jorge prossegue a sua linha estética de grande rigor e austeridade, pontualmente iluminada por efusões de um lirismo que nunca abandona um recorte clássico. Como sempre, há poemas que se inspiram nas artes visuais (a pintura de Rembrandt; uma fotografia de Ed van der Elsken) e outros que captam a natureza epifânica das coisas mais simples: o melro que bebe de um prato de barro com «água a rasar», uma capela, a «ondulada lâmina // do desejo» que «desarma o corpo», o licor de leite filtrado gota a gota, os «cambiantes» cromáticos dos medronhos maduros.
Se o título do livro faz alusão ao «toro de madeira branca que sustenta o fogo por vários dias», arrisco dizer que a «mãe-do-fogo» deste conjunto de poemas é a memória («talvez / não se possa fazer mais nada na vida senão / recordar»), uma memória onde cabe tanto a evocação da pedra de mármore onde o pai, farmacêutico, pousava a espátula, como a experiência de visitar, aos nove anos, um doente moribundo e ouvir o «estranho rumor» da sua agonia. Também há pequenos vínculos simbólicos entre os poemas (num, a maçã vermelha do ramo mais baixo comida por uma ovelha; noutro, a maçã do ramo mais alto à mercê do bico preto do corvo) e densas meditações sobre a paisagem, ou as ruínas da ausência.
O tom da escrita, esse, nunca esconde a amargura, nem a nostalgia de um mundo aldeão em vias de desaparecimento, como o descrito no início do poema XIII (pág. 24):

Tenho para mim neste derrotado começo de século
neste farrapo de país em que a própria língua virá em
breve a ser idioma secreto
e a quem ninguém chamará pátria nem tão-pouco
nação, apesar da vigilância sobre a nossa existência
ser matéria autocrática e clerical,

tenho para mim que nesta geografia
a casa rural é a expressão mais pura que sobrevive

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “O fogo por vários dias”

  1. changuito on Fevereiro 22nd, 2010 15:08

    Ah bandido, que roubaste a imagem ao blogue da livraria. Sabes como sei? A mancha no vidro do scanner é a mesma…

    Abraço,
    Changuito

    PS: Espero que a Dona Alice, o Dom Pedro e a Dona Margarida estejam bem

    • José Mário Silva on Fevereiro 22nd, 2010 19:58

      Pois foi, Changuito. Roubado, sim. E roubado à má fila. Vi logo que ias topar a coisa por causa da mancha. A alternativa era fotografar a capa, por isso… thanks.

      Leia os últimos textos publicados
      «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges