O guerrilheiro

Aos 29 anos, Miguel-Manso – com o hífen a tornar artístico o seu nome verdadeiro – veio agitar as águas algo paradas da poesia portuguesa. Dois livros em poucos meses, o primeiro em Maio de 2008 (Contra a Manhã Burra, edição de autor), o segundo em Novembro (Quando Escreve Descalça-se, Trama), mereceram elogios dos críticos do Expresso e deram-lhe o estatuto de revelação «segura». O que o próprio agradece, claro, mas não valoriza por aí além. Diz que a poesia lhe surgiu como um impulso, uma necessidade. «Tinha a urgência de escrever. Neste momento, é ao contrário: preciso de não escrever. Estou um bocado farto das minhas palavras e à procura de outra coisa.»
Quando veio para Lisboa, este ribatejano de Almeirim, nascido em Santarém, inscreveu-se em Design de Comunicação, mas faltava às aulas. Saltou para a Ar.Co, onde aprendeu desenho durante três anos. Abstractos, os seus traços começaram a ficar cada vez mais pequenos, em folhas cada vez maiores. Um dia, desapareceram completamente e com eles o desejo de desenhar. Foi então que surgiu a poesia, de que desistira uns anos antes, mas a que voltou de repente, quando se cruzou com a obra de João Miguel Fernandes Jorge e «houve um clique». Na altura, meados de 2006, Miguel-Manso escrevia em blogues: Largo do Karma e Rua Luxuriano, sucessores do Baixa-Shiatsu (o único que não conseguiu apagar, porque se esqueceu do username). «Foram o treino, em prosa, para a poesia», admite. Aberto o caminho, a escrita na Internet eclipsou-se, como se eclipsara antes o desenho. Agora não tem poiso na blogosfera, nem vontade de ter.

«Sou muito ansioso», diz o rapaz de barba antiga, cabelo revolto e casaco à Corto Maltese. Uma ansiedade que se reflecte no seu percurso profissional, se é que se pode chamar percurso profissional à sequência de trabalhos fugazes por onde passou como cão por vinha vindimada: bibliotecário em Odivelas, responsável pelo centro de documentação da galeria ZDB, vigilante no Museu do Chiado («é óptimo para ler, se não te importares de ler em pé»), tarefeiro na Ellipse Foundation (onde fez, «durante um período muito curto», o levantamento das obras de arte nas reservas) e porteiro do Hotel des Artistes da Casa d’Os Dias da Água («era óptimo: tinha um quartinho, com uma mesa para escrever, e só precisava de estar atento à campainha»).
Hoje, embora saiba que mais tarde ou mais cedo terá que arranjar um emprego normal, vive de biscates – como fazer textos para companhias de teatro independente – que lhe dão o pouco dinheiro de que precisa. «Moro numa casa de família, sem pagar renda. E abdico voluntariamente de grandes luxos. Cinema, só às vezes. O que gasto, gasto em livros.» Mesmo assim, quando quis acabar o primeiro volume de poemas, conseguiu ir para fora. Escolheu Paris, «único lugar onde tinha dois ou três sofás onde dormir». E lá passou parte do Inverno, a escrever na cozinha de um amigo, perto do canal Saint-Martin.
No regresso, com o dinheiro que sobrou da viagem (350 euros) pagou os 200 exemplares da edição de autor. Como está fora dos círculos literários, nem tentou publicar o livro numa editora estabelecida. «Interessava-me despachar a coisa.» E despachou-a, para logo dar início ao opus 2, que também reproduz na capa, como o primeiro livro, um carimbo comprado numa loja de velharias em Gent. A ideia é fazer uma série, justamente intitulada “Os Carimbos de Gent”, capaz de durar uns bons anos e chegar aos 12 volumes: «Tenho para lá mais uns dez carimbos que ainda posso usar.»
Dos seus dois livros, diz que são «cartas de amor». E são, de facto. Eis como termina um dos poemas:

«incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar
»

O título do poema é O PREC em 2008 mas não há nele ponta de ironia. «Acredito mesmo nisto como causa revolucionária e deixo mesmo poemas em cafés para a minha amada.»

[Perfil publicado no suplemento Actual, do Expresso, em Janeiro de 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges